27 de abril de 2009

A Ciência de Popper

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Dentre os vários âmbitos que tentam explicar alguns aspectos desse mundo – filosofia, religião e senso comum - a ciência sempre teve lugar de destaque. Além do respaldo e da credibilidade já adquiridos na mídia, ela é valorizada por seus resultados práticos, pelo seu conteúdo informativo e pela capacidade de nos libertar de velhas crenças, velhos preconceitos e certezas. Mas o que é Ciência, e quais são os critérios utilizados para definirmos o que a ela pertence? Serão a astrologia, o espiritismo e a psicanálise teorias científicas?


Para esclarecer estas questões o filósofo da ciência Karl Popper (1902-1994) elaborou um vasto trabalho sobre a demarcação de ciência. A reposta mais generalizada encontrada hoje, é que esta disciplina se distingue de outros campos do saber por seu método empírico, por ser passível de observação. E este, segundo Popper, talvez seja o maior equívoco que encontramos hoje na definição de ciência.

Em seus trabalhos, o autor observou que muitas crenças supersticiosas e muitos métodos de sabedoria popular (para plantar, por exemplo) encontrados em almanaque e manuais de interpretação dos sonhos, estavam também muito relacionadas à observação. Através de experiências quotidianas, essas disciplinas encontravam similaridades no mundo, e a partir daí formulavam teorias para explicá-las.

Dito de outra forma, elas utilizavam o método indutivo. Partiam de problemas singulares para a formulação de teorias gerais. Para Popper este método é inconcebível já que não há como demonstrar que aqueles casos de que não tivemos qualquer experiência se assemelhem àqueles de que tivemos. O filósofo refuta o método indutivo (observações -> teoria), propõe o método dedutivo (teoria -> observações) como sendo o único aceito por teorias científicas, e utiliza a falseabilidade como critério para demarcação do âmbito científico.

Sendo assim, uma teoria para ser considerada científica tem de ser refutável. Tem de ser capaz de se confrontar com possíveis observações. O autor defende a perspectiva de que nós primeiro criamos teorias e depois partimos para a observação para testar nossas teorias. Os enunciados científicos devem proibir que certas coisas aconteçam e preverem determinados resultados. Quanto mais uma teoria proibir, melhor.

Os enunciados científicos são tentativas de encontrar a verdade, embora nunca possamos saber se a encontramos. Todas as leis, todas as teorias permanecem provisórias ou conjecturais mesmo que nos sintamos incapazes de continuar a pô-las em dúvida. É através da procura por refutações que a ciência pode esperar aprender e progredir. Assim, o método de ensaio e erro é um método de eliminação, e neste sentido, a teoria refutada pelos testes deve ser eliminada do cenário científico.

Popper também defende a perspectiva de a ciência de desenvolve pela alteração constante e total de conhecimento, sendo uma das poucas atividades humanas, talvez a única, em que os erros são sistematicamente criticados e freqüentes vezes corrigidos com o tempo. Ela progride de problemas para problema de complexidade sempre crescente. É por isso que podemos dizer que, em ciência, estamos freqüentemente aprendendo com os nossos erros, advindo daí o progresso científico.


Texto e edição: Rafaela Sandrini
Revisão de texto: Luciane Simonetti

12 comentários:

  1. A contribuição do pensamento popperiano para a feitura da ciência contemporânea estabelece um dos mais importantes marcos deste âmbito do saber.

    Aconselho acompanharem também o debate entre a perspectiva de Popper em relação às teses defendidas por Thomas Kuhn.

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  2. Não é de hoje que a questão “ciência” intriga, mas que concomitantemente nos abre diferentes faces e diferentes pontos de visões para entender o mundo, com resultados quase ou praticamente exatos, mas que em contrapartida possibilitam o progresso, uma vez que não é um resultado estagnado e definitivo. Percebo que o que muitas vezes nos ocorre (generalizo), é que os resultados práticos concebidos e consequentes da ciência, resultados estes advindos de uma teoria previamente elaborada - como defende Popper - podem saciar nosso senso comum e cair como uma resposta a questionamentos, com o diferencial inconfundível do termo que muito nos é remetido “é comprovado cientificamente”, ou seja, é tomado como uma verdade absoluta, sendo que enunciados científicos podem exporem-se à experiência e novas observações, que tanto as pode afastar, falsificando-as, como confirmar, corroborando-as.

    Cabe destacar, como já defendeu de forma consistente Popper, que a ciência possivelmente seja uma das únicas atividades humanas em que os erros são criticados e até corrigidos com o passar do tempo, prevendo assim um próprio progresso no seu âmbito.

    Mas assumindo uma preocupação mais relativa neste momento, o que essencialmente tem mais contribuído para o progresso da ciência? A tecnologia, os métodos de análise, o trabalho de alguns pensadores ou outros fatores? E paralelamente, Popper abordou algo nesse sentido nos seus estudos?

    E finalmente, podemos criar uma boa perspectiva sem ceticismos, nessa era tecnológica que vivenciamos no que se refere ao desenvolvimento da ciência?

    Grata.

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  3. Monique, existem duas formas para explicar o desenvolvimento científico. A primeira explica a ciência pela acumulação de conhecimento, como uma biblioteca em permanente expansão. A outra explica-o pela crítica. O conhecimento, neste caso se desenvolveria por um método que o vai destruindo e alterando na sua totalidade. Para Popper, na ciência o progresso se dá pela mudança revolucionária de teorias científicas. Se a ciência pudesse crescer por mera acumulação, não faria grande diferença se a tradição científica se perdesse, uma vez que a qualquer momento poderíamos começar a acumular de novo. O que faz a Ciência progredir é o método de ensaio e erro. Na perspectiva popperiana, a explicação científica é, a redução do conhecido ao desconhecido. Teorias tem um grande papel pelo fato de nós as subtermos a rigorosos testes, e tentarmos deduzir delas alguns dos padrões de regularidade do mundo conhecido da nossa experiência comum. E estas tentativas de explicar o conhecido pelo desconhecido alargaram incomensuravelmente o reino do conhecido. As tecnologias nessa perspectiva, acreditou eu, seriam instrumentos que nos auxiliam nos testes e na comprovação das teorias científicas.

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  4. Maaas...como apontou o Nivaldo, é importante analisarmos também a perspectiva do filósofo Thomas Kuhn que adota uma atitude diferente. Kuhn argumentou que as teorias científicas modernas não são mais verdadeiras do que as teorias que elas desbancam, apenas diferentes. As teorias sobre a natureza humana, nunca morrem. Para Kuhn, e comum que velhas idéias sejam simplesmente recicladas ou reformuladas (a metafísica, por exemplo, é um paradigma que ainda persiste e causa mal-estar para a ciência).


    E então...a ciência estaria mesmo sempre se desenvolvendo sempre de teorias para teorias mais verdadeiras, ou seriam apenas formas diferentes de tratar dos mesmos problemas?

    Quanto ao ceticismo....gosto muito de uma idéia defendida pelo jornalista americano John Horgan. O jornalista afirma que ceticismo de menos nos deixa à mercê de charlatões científicos e ceticismo demais pode levar a uma negação da possibilidade de chegar a qualquer conhecimento. Mas a dose certa de ceticismo combinada a dose certa de otimismo, pode nos proteger da avidez por respostas enquanto nos mantém receptivos o bastante para reconhecer a verdade se e quando ela chegar

    Abraços

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  5. Olá a todos,

    Obrigada a Rafaela e Luciane por exporem um texto como sempre, indutivo a reflexão.

    É fato que a visão de uma ciência desenvolvida de forma analítica dos paradígmas deve de ser observada. A falseabilidade se apresenta como uma opção interessante, inspira ceticismo, o que é definitivamente plausível no âmbito científico.

    Todavia, se considerarmos mudanças paradigmáticas, a complexidade da escolha pelo método adequado de fazer ciência passa a ser evidente.

    A proposta de Thomas Khun parece engendrar uma postura que exige um cuidado imponente. Até que ponto alguma análise justificaria um desdobramento a se tornar aceitável a mudança paradigmática?
    Não seria necessária a falseabilidade de Popper para tal acontecimento?

    Me refiro ao fato de que uma vez destacando a refutação,não poderia se dar a dimensão da análise, de maneira a considerar o refutável como mais um ponto de observação a ser verificado, almejando ainda o momento da nova visão conceitual?

    Se Khun propõe uma análise científica que de início parece tentadora, a concepção de Popper se caracteriza como possuidora de fundamentação tão sólida quanto sua própria idéia de solidez em ciência. O que interessa também de ser destacado...

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  6. Correção: se trata de Thomas Kuhn, não de Thomas Khun.

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  7. Segundo Popper a ciência progride graças ao ensaio o erro, e as refutações. A ciência se inicia com problemas, problemas estes que estão associados à explicação de alguns aspectos do mundo, o cientista propõe hipóteses falsificáveis para resolver o problema, estas são criticadas, testadas, e justificadas. Algumas são eliminadas, as que não forem devem ser criticadas e testadas com mais rigor, com intuito de falseá-las. Ao descobrirmos a falseabilidade aprenderemos mais sobre a verdade e chegaremos mais perto dela. Quando se falsifica uma hipótese, surge um problema que é a invenção de novas hipóteses seguidas de novas provas e testes indefinidamente, por isso não se pode afirmar que uma teoria é verdadeira, por mais provas que tenha superado ela somente estará mais próxima da verdade.
    Com base nisso como definir a psicanálise uma teoria científica segundo os critérios de demarcação de Popper?
    O fato de uma teoria poder ser falsificável determina sua cientificidade.
    Aí perguntamo-nos até que ponto a mesma é suscetível de refutação se está embasada em teorias mentalistas. De que forma se daria isto, teríamos que nos voltar à questão mente – cérebro? E quanto à elaboração de suas teorias, Freud não estaria sendo guiado pelo método indutivo ao avaliar-se a si mesmo como exemplo? Pois quando este passa a observar seus próprios sonhos e se engaja como objeto da experiência, não estaria o mesmo atendendo aos seus próprios pressupostos, e assim partindo de um juízo particular para um juízo universal?

    Vale indagar também, o fato de as teorias, não poderem ser rejeitadas de uma maneira terminante. E se posteriormente os enunciados que servem de base para a falsificação forem considerados falsos a futuros progressos? Assim se levássemos estritamente esta metodologia popperiana, muitas teorias científicas bem sustentadas até os dias de hoje, não correriam o risco de serem rejeitadas logo à sua nascença?

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  8. Luiz,

    gostei muito das suas observações...

    quanto a psicanálise, respondo SIM a todas suas questões. E ainda há mais um ponto crítico nesta questão, pois a psicanálise pode responder a praticamente QUALQUER indagação que tenhamos, ou seja, ela pode explicar desde o porque de pentearmos o cabelo para a direita até o porque da criação do grande acelerador de partículas, ou o poeque de o homem querer ir a lua...e tudo o mais que você quiser saber!!! Neste caso, a psicanálise torna-se irrefutável, pois tem respostas para tudo. Ela vai se enquadrar totalmente contra a concepção popperiana de ciência, que prevê que as teorias científicas devem proibir certas coisas, ou seja, devem fazer algum tipo de redução dos acontecimentos de modo que possam explicálos de alguma forma, e sendo assim essas proibições podem OU não estar corretas, e se nao estiverem podem ser falseadas. Com a psicanálise isto nao pode ocorrer, pois a qualquer questionamento da teoria existe uma OUTRA explicação (advinda da psicanálise) explicando o porque deste questionamento, e este questionamento pode inclusive ser caracterizado como um complexo que você tem, e nao como uma dificuldade da teoria!!!

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  9. Olá Luiz, bem vindo ao blog....


    Complementando o que o Eduardo disse, de acordo com a perspectiva Popperiana...a psicanálise não é ciência. Vou citar dois critérios da teoria popperiana:

    1. Método dedutivo: Popper defende a perspectiva de que nós primeiro criamos teorias e depois partimos para a observação para testar nossas teorias e não o contrário. Neste critério, a psicanálise não passa no teste de cientificidade, pois ela faz o caminho inverso, parte das observações para a teoria.
    2. Proibições: Para Popper, teorias científicas devem proibir que certas coisas aconteçam e preverem determinados resultados. Quanto mais uma teoria proibir, melhor. Neste critério, a psicanálise também encontraria problemas. No seu escopo teórico, não há previsões e nem proibições. Qualquer caso pode ser explicado pela teoria, e qualquer observação é tida como uma comprovação de que a teoria funciona para qualquer caso concebível. Mas de acordo com o método popperiano, esta conclusão é errônea. As observações não poderiam ser consideradas confirmações das teorias freudianas, pois confirmações só devem ser aceitas, se forem consideradas resultado de previsões arriscadas. Este seria este o método da conjectura e da refutação.

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  10. To gostando de ver!!!

    Só quero saber quem vai conseguir disutir com vocês daqui um tempo...tenho que me cuidar também!

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  11. Rafaela,

    Sua ponderação está perfeita! Por este motivo que diversas abordagens ditas científicas realmente não o são! Elas não passam no teste de cientificidade, ou seja, não possuem os elementos fundamentais que a constituem como um corpo teórico de ciência, mas sim, de literatura geral.

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