12 de março de 2009

A Aposta da Neurociência: Perspectivas Futuras

Problemas conceituais e metodológicos são facilmente encontrados dentro das teorias psicológicas. Textos e trabalhos teóricos de muitos filósofos da mente tentam resolver este problema ao buscarem uma definição do conceito de mente e a dissolução do problema mente-corpo. A Filosofia da Mente , de modo específico, preocupa-se com esta análise conceitual de teorias por meio de uma investigação científica.


________________________________________________________

O surgimento da Filosofia da Mente teve marco inicial no final da década de 40 e início da década de 50 com a publicação de trabalhos científicos do filósofo da mente Gilbert Ryle. Na tentativa de solucionar estes problemas linguísticos como “mente”, “subjetividade”, “inteligência” é que outros teóricos como, por exemplo, Dennett, Searle, Davidson, Nagel e os Churchlands, começaram a desenvolver seus trabalhos daí decorrentes.

As discussões e as tentativas em desfazer a idéia de termos mentalistas surgidas no escopo desta área do conhecimento geraram alguns posicionamentos. Dentre eles, a postura monista ou materialismo, como muitos preferem chamar, tem sido a opção mais acertada, uma vez que a sustentação de seus argumentos filosófico-científicos é demonstrada pela refutação de adeptos de posições dualistas e agnósticas.

Aparentemente, a posição monista não estaria enfrentando maiores problemas no que se refere as suas observações de métodos experimentais confiáveis. Tampouco, preocupa-se com o que chamamos de problema da causação mental – que afirma que estados mentais causam alguma reação física no cérebro, como acreditam os dualistas.


Pensando na Vaca Amarela
_________________________________________

Os monistas, entretanto, defendem que sua teoria conseguiria resolver todos os problemas encontrados pela Filosofia da Mente, inclusive os conceituais, já que “ao produzir ciência não podemos separar qualquer feito científico dos termos e conceitos utilizados para explicá-la”. (João de Fernandes Teixeira)

Sendo assim, o fazer científico deve se pautar em comprovações empíricas cujos resultados não comprometam a linguagem que se utiliza para argumentá-la. Ou seja, não bastam haver investigações científicas sem que para isso haja uma análise conceitual do seu objeto de estudo.

Nesta mesma linha de pensamento as posições materialistas têm em comum a idéia de que não é possível fazer uma divisão entre mente e cérebro. O defensores do materialismo eliminativo, reducionista ou das teorias da identidade, por exemplo, acreditam que a neurociência poderá em um futuro não muito distante comprovar seus postulados: encontrar todos os correlatos neurais para os estados mentais.
Teríamos a certeza de quais regiões cerebrais estariam envolvidas quando se quer pensar em uma vaca amarela, como também, olhando para o cérebro afirmar que se estava, de fato, pensando em tal conteúdo!

A neurociência, portanto, é a aquela que promete enterrar todas as dúvidas geradas pela ciência filosófica. Com o advento de técnicas de neuroimagem será possível pôr em xeque qualquer dúvida gerada pela linguagem psicológica, ou para alguns a folk psychology. Se todo comportamento possui uma base biológica todas as nossas sensações subjetivas poderão ser traduzidas em estados físicos ou cerebrais. Eis a aposta da neurociência!

Texto de Luciane Simonetti e Thiago Strahler Rivero
Edição de Rafaela Sandrini

29 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. gostei do texto... a aposta da neurociência é muito tentadora, porém, em certos aspectos ainda sou um tanto cético, como é o caso da eliminação da folk psychology, ou sua possível substituição pelo neurologûes... e também da transposição tempestade elétrica/conteúdos mentais...

    mas o texto está muito bom!
    abraço a todos!

    ResponderExcluir
  3. Cláudia,

    É exatamente nesta linha de pensamento que os Chuchrlands caminham...

    Tudo é uma questão de tempo para que, através do avanço tecnológico, as fronteiras para a identificação dos estados mentais e eventos psicológicos sejam traduzidos em esquemas físico-químicos que se dão em nosso aparato cerebral.

    Entretanto, tal aposta futura...é uma APOSTA!

    ResponderExcluir
  4. Eduardo,

    De fato, acho que vai demorar bastante para que as idéias churchleanas entrem realmente para o rol de conquistas cientificamente comprovadas.

    Fico aqui imaginando, se eliminássemos a folk psychology como me refereria ao receber uma paulada no meu dedo mínimo: "ai! a parte posterior do lado direito do meu cérebro, mais precisamente a região somatossensorial está me avisando de que a dor que estou sentindo é de 5 cm de distância do meu tálamo, que por sua vez, identificou que meus neurônios dopaminérgicos (sei lá) e os genes envolvidos no processo."

    Fica difícil, né.

    ResponderExcluir
  5. Lu,

    este exemplo é muito bom, todavia, é muito difícil falarmos a priori sobre as implicações que o neurologês poderia causar na nossa comunicação, todavia, acredito que cada vez mais estamos refinando nossa linguagem, de forma que termos ou causas mitológicas estão pouco a pouco sendo substituidas por termos científicos, e assim, mesmo que nao venhamos a utilizar única e exclusivamente o neurologuês, ele servirá para esclarecer a ontologia dos termos que utilizamos no dia-a-dia.

    ResponderExcluir
  6. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  7. Eduardo,

    Me passou pela cabeça agora: será que realmente podemos atribuir algum tipo de ontologia a termos mentalistas mesmo que estes fossem "traduzidos" para o neurologuês?

    Sei nãi, viu!

    =D Bjuuu

    ResponderExcluir
  8. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  9. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  10. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  11. Olá a todos

    Aos produtores do texto,parabéns pela clareza e concisão.=)

    Se a Neurociência se mostra segura das contribuições que ela está por trazer, perfeito. Todavia, a importância de que a conexão dos dados que venham a emergir dessa fonte sejam entendidos de maneira global é indiscutível.

    Me refiro a análise ontológica séria de elementos mais complexos da mente,como por todos bem é sugerido.Porém, atentando ao fato de que se a Neuriciência vir a apresentar dados até então desconhecidos, é sugestiva a idéia de que a contribuição para a solução dos problemas de semântica e sintaxe é percebida como uma forte base do processo .

    Porém,o olhar neurocientífico
    parece servir apenas de contribuinte importante,não único de tal resolução, afinal o problema semântico acaba emergindo no momento que venha-se a encontrar respostas na própria linguagem da Neurociência.

    Então, nesse sentido, mesmo com resultados altamente significativos neurocientíficos, a associação do que for encontrado fisicamente instiga ter um longo trajeto a ser especificado. E ainda mais ressoa distante a conexão dessas traduções até que elas sejam entendidas na folk psychology.

    Até breve

    ResponderExcluir
  12. Marindia

    A neurociência sendo uma aposta, de fato precisa encontrar dados comprobatórios para o feito tão sonhado.

    E a análise linguística, creio eu, jamais poderá ser deixada ao relento.

    =D

    ResponderExcluir
  13. Luciane,

    se a neurociência nos proporcionar "ver" a vaca amarela no cérebro de alguém, então creio que teremos boas razões para dizer que ela possui uma ontologia bem definida...

    ResponderExcluir
  14. Achei o texto bastante interessante, apesar do pouco conhecimento que ainda possuo sobre o assunto, pois estou iniciando no curso de Psicologia.
    Uma das coisas que me chamou atenção, e dentro desta faço uma pergunta, é o que diz respeito à neuroimagem. Será de fato possível algum dia os neurocientistas, além de visualizarem as regiões do cérebro relacionadas ao pensamento,visualizar o que o indivíduo está pensando da forma como este o vê? Ou isto é mera especulação? A final tal feito revolucionaria várias áreas e de forma muito marcante a Psicologia.

    ResponderExcluir
  15. Até que ponto a exatidão neurocientífica é associável de forma segura a descrição perceptiva que o paciente relata/apresenta comportamentalmente?

    Exatidão,discriminação entre A e A+ ou A-, ou otro... E ainda uma conexão entre os termos da folk psychology...

    ResponderExcluir
  16. Temos que nos aprofundar um pouco mais nesse assunto, pois ninguem ainda conseguiu definir, como realmente a mente funciona. e esse assunto me chamo a atenção!E tambem é uma forma da gente entender, o que as pessoas pensam, e nao demonstram para os outros!!Claro que a pessoa tem o direito de guarda pra si, mas se puder compartilhar,já é um bom começo!!

    ResponderExcluir
  17. Eduardo, concordo contigo. Também sou um tanto quanto cética ao reducionismo radical.
    Muitas das predições da ciência fracassaram. A mente humana mostrou-se muito mais indecifrável do que imaginávamos. Nesta confusão e na busca por uma resposta unificadora, várias foram as disciplinas que tentaram decifrar o tão complexo cérebro humano.

    Como questiona o jornalista John Horgan...afinal, quem somos nós? um monte de neurônios ou de genes idiossincráticos? um monte de adaptações esculpidas pela seleção natural ou de dispositivos computacionais dedicados a diferentes tarefas? Ou como defenderia Freud...um monte de neuroses sexuais?

    A neurociência é ainda insatisfatória em alguns aspectos, mas parece ser uma resposta científica muito plausível na busca da resolução para o problema mente-cérebro.
    Enquanto a resposta não vem, precisamos ter cuidado com os perigos impostos pelo excesso de autoconfiança cientifica enquanto nos mantemos ávidos por novos avanços.
    Adoto um certo ceticismo esperançoso, como conceituaria Horgan.

    ResponderExcluir
  18. Existem antecedentes muito importantes em filosofia da mente ao trabalho seminal de G. Ryle em filosofia analítica no Século XX.

    Cito _The Analysis Of Mind_ de Bertrand Russell (1921) e _The Mind and Its Place in Nature_ de C.D. Broad (1925)

    []'s

    ResponderExcluir
  19. Olá amigos,
    Fiz uma leitura do texto e com certeza um texto muito bom, porem que nos deixa com muitas incógnitas a respeito das possíveis respostas que gostaríamos de saber.
    Realmente a neurociência nos traz e nos deixa com muitas duvidas a respeito de onde poderíamos chegar e o que de fato alteraria em nosso meio se de certa forma fossemos beneficiados, se é que posso dizer assim, em até que ponto isso seria verdade?
    Imagine, entre tantas descobertas que gostaríamos que fossem verdade, usando apenas um simples exemplo do comentário da colega Ane Karine, onde ela levanta a hipótese de vermos as imagens geradas pelo cérebro, vocês já pararam para pensar na repercução que isso geraria na sociedade?
    Levaremos em conta de que seria possível ver e rever todas as nossas memórias gravadas de acontecimentos desde nossa infância ate os dias de hoje, Pergunto?
    Existiriam pessoas corruptas?
    Existiriam crimes inexplicáveis?
    Ainda seriamos capazes de mentir?
    Observando desse ponto realmente seria uma coisa incrível e Benéfica para todos, mas a sociedade aceitaria isso?
    Será essa a nossa grande solução que aguardamos para um mundo melhor? Será que ela vem da neurociência? Será-nos permitido chegar a esse conhecimento?
    Com certeza temos muito que aprender e a neurociência a nos ensinar, mas temos que também pensar se nos será permitido desfrutar de tanto conhecimento que nos será fornecido, pois não será visto por todos como uma Grande Descoberta.

    PS: Mas com certeza Seria a mais fantástica e ousada descoberta do Homen.

    ResponderExcluir
  20. Everton,

    As suas preocupações éticas quanto as descobertas que a neurociência pode vir a atingir já estão gerando discussões no âmbido da filosofia ética.

    Virá um tempo em que uma disciplina chamada neuroética estará em pauta nos grandes questionamentos e argumentos filosófico-científicos a respeito desta revolução mecatrônica do mundo moderno.

    Abraços!

    ResponderExcluir
  21. Everton,

    As neurociências já estão e, comc erteza, ainda irão muito contribuir para questões como as que referencias....

    mas devemos ter a cautela para não atribuir um poder maior do que o real que ela possuiu. Na história da humanidade muitos e graves erros foram e são cometidos por este mesmo fator!

    Mas, concordo com vc plenamente nesta aproximação com outras áreas do saber humana.... (o Direito seria, sem dúvida alguma, um dos âmbitos que mais lucraria com tais descobertas).

    ResponderExcluir
  22. Há uma grande perspectiva na Neurociência quanto ao descobrimento dessas experiências humanas. Mas até que ponto o ser humano é capaz de procurar e definir pela neurociência sua perspectiva para o comportamento humano? Se construímos os sentimentos (raiva de alguma pessoa, tristeza por morte e etc.) ao longo da vida então o ser humano nasce desprovido destes comportamentos?
    Já se sabe as partes do cérebro que são responsáveis por determinados comportamentos, mas o que não se sabe é o que leva a desenvolver nas pessoas esses sentimentos, pois só recriar o cérebro não bastaria teria também que formular momentos na vida das pessoas que são atuantes na formulação destes sentimentos.
    A
    João Paulo - Psicologia 1fase.

    ResponderExcluir
  23. Muito bom o texto! Conciso, objetivo, e foca o principal dilema das diferentes apostas em Filosofia da Mente. Um trecho em especial chamou a minha atenção: "Sendo assim, o fazer científico deve se pautar em comprovações empíricas cujos resultados não comprometam a linguagem que se utiliza para argumentá-la."

    Gostaria de saber como se daria a comunicação e a própria compreensão do comportamento humano sem a linguagem mentalista, como pregam alguns eliminatistas.

    ;-)

    ResponderExcluir
  24. Achei muito interessante o texto, varias coisas me chamaram a atençao.
    Bom é muito dificil mesmo achar uma solução pra entender a mente, e um dos problemas que está é na mente-cérebro, que começou nos anos de 1950,que foi defendida por muitos filósofos.A neurociência com seu "jeito"futuro na comprovação de que a nossa vida mental é apenas a manifestação de um metabolismo, e também nso estados mentais seria iguais a estados cerebrais.Pois a partir dai começou um problema empírico, como um objeto de ciência.E a psicologia parece enfrentar um paradoxo: que se adptar ao método científico e tornar efetiva a ciência do psiquismo.Bom era isso que achei de bom do texto.

    Abraços a todos
    e até mais...

    ResponderExcluir
  25. Nina,

    Seria impossível (se bem que não entendi bem o que você entende por eliminatistas, mas se for no sentido de querer eliminar o vocabulário mentalista.... isso seria um notável sonho impossível, pelo simples fato da linguagem ser uma vantagem adaptativa espetacular para a espécie (principalmente a Humana)).

    ResponderExcluir
  26. muito bacana este texto... mas infelizmente ainda estamos atrasados nessa pesquisa de fotografar a mente e ver como funciona o pensamento, enfim. Deduzo, que o pensamento nao estah no cérebro humano, mas sim no espírito que governa o corpo. O cerebro simplesmente governa o corpo humano,mas desacredito que o pensamento aconteça nos neurònios...

    ResponderExcluir

Bem-vindo à discussão!