20 de fevereiro de 2015

Inteligência(s)

O que é inteligência? O que é ser inteligente? É possível quantificar a inteligência? Ao longo da história da sociedade foram muitas as tentativas de encontrar respostas para essas questões. Inúmeros estudiosos da área empreenderam esforços na formulação de teorias sobre o tema. Atualmente, é possível encontrar uma grande quantidade de definições para inteligência, bem como, classificações e quantificações da mesma, em especial no campo da ciência cognitiva.

Nesse cenário, o objetivo deste breve texto é demonstrar a teoria desenvolvida pelo psicólogo cognitivo norte-americano Howard Gardner, qual seja, as inteligências múltiplas, tendo em vista algumas oposições da mesma em relação ao conceito tradicional de inteligência que se difundiu principalmente no campo da psicologia com a criação de “testes de inteligência” e o estabelecimento de uma inteligência geral por muitos psicometristas, bem como, as fontes de evidências que Gardner utilizou em sua formulação.

Primeiramente, é valido destacar que Gardner (2001, p.47) define inteligência como: “um potencial biopsicológico para processar informações que pode ser ativado num cenário cultural para solucionar problemas ou criar produtos que sejam valorizados numa cultura.”

A teoria das inteligências múltiplas, segundo Gardner (2001), consiste na descrição da cognição dos seres humanos, propondo que todos são dotados de um conjunto de sete ou mais inteligências, sendo que, em decorrência da evolução das espécies, todos possuem esses potenciais em alguma escala que sofrem influências das inclinações pessoais, bem como, da cultura predominante, ocasionando uma mistura singular de inteligências.

Num primeiro momento, Gardner estabeleceu uma lista com sete tipos de inteligências, sendo elas: linguística, musical, lógico-matemática, espacial, corporal-cinestésica, intrapessoal e interpessoal (GardnER, 1994). Porém, com o passar dos anos, Gardner adicionou a inteligência naturalista (GARDNER, 2001) e vem cogitando a possibilidade de inserir uma nona inteligência, a existencial (GARDNER, 2001, 2010).

É necessário esclarecer aqui, como o próprio Gardner (1994) relata, que houve muitos esforços anteriores para determinar inteligências independentes, todavia, a falta de fundamentação e embasamento, fez com que as mesmas não obtivessem o êxito esperado. Dessa forma, o autor destaca que o grande diferencial de sua teoria é o fato de ter utilizado diversificadas fontes de evidências no decorrer de sua construção.

Gardner (2001) pontua os oito critérios que utilizou como base para a teoria, os quais, considera indispensáveis na decisão de classificar ou não uma inteligência, sendo eles: i) a possibilidade de isolamento de lesão cerebral; ii) aspectos evolucionários da espécie; iii) operações nucleares que sejam possíveis de identificar; iv) ser suscetível à codificação num sistema simbólico; v) desenvolvimento distinto juntamente com um conjunto de desempenhos possíveis de definir; vi) a existência de prodígios e outras pessoas excepcionais; vii) pesquisas de execução de tarefas psicológicas experimentais, viii) descobertas psicométricas, que apontam para inteligências distintas.

Como destaca Sternberg (2013), Gardner propõe em sua teoria uma visão modular da mente humana na qual capacidades distintas podem ser isoladas, já que correspondem a partes distintas no cérebro.

Em suma, conforme discorrido brevemente aqui, a teoria das inteligências múltiplas é apenas mais uma tentativa de explicar e classificar a inteligência humana, porém, quem sabe, seja merecedora de maiores investigações dentro do campo da emergente ciência cognitiva, visto a relevância e influência que o tema exerce na vida de todos.

Texto de Natanna Taynara Schutz

REFERÊNCIAS:

GARDNER, Howard. Estruturas da mente: a teoria das inteligências múltiplas. Tradução de: Sandra Costa. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

_______. Inteligência: Um conceito reformulado. Tradução de: Adalgisa Campos da Silva. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

________. O nascimento e a difusão de um “meme”. In: GARDNER, Howard; CHEN, Jie-Qi; MORAN, Seana.  Inteligências Múltiplas ao redor do mundo. Tradução de: Roberto Cataldo Costa; Ronaldo Cataldo  Costa. Porto Alegre: Artmed, 2010, p.16-30.

STERNBERG, Robert J. Psicologia Cognitiva. Tradução de: Anna Maria Dalle Luche; Roberto Galman, 5. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2013.

5 comentários:

  1. Essa coisa do processamento modular do Sternberg, com módulos correspondendo a partes diferentes do cérebro, acho bem precária, porque na prática não parece ser observado esse tipo de identidade. É o mesmo 'problema' com o uso da modularidade pelo John Tooby e Leda Cosmides, na psicologia evolucionista. Seria mais coerente falar de um modelo funcionalista da mente, mas em alguns artigos os psicólogos cognitivos parecem se confundir e deixar explícita uma teoria da identidade.

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  2. Texto bem produzido Natanna. Tenho certeza que o seu trabalho completo ficou excepcional.

    Não conheço a teoria de Gardner, mas uma coisa me chamou atenção no texto.
    A citação que você faz de Sternberg quando ele diz que Gardner "propõe em sua teoria uma visão modular da mente humana na qual capacidades distintas podem ser isoladas, já que correspondem a partes distintas no cérebro."

    O que exatamente significa esse "visão modular da mente humana"? Mente e cérebro são aqui utilizados como "equivalentes"?

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  3. Felipe, realmente a visão modular pode estar equivocada em muitos pontos, porém, particularmente acredito, que a grande sacada ainda possa estar nos detalhes de sua compreensão.

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  4. Elizeu,

    Primeiramente obrigada por suas palavras, fico muito feliz!

    Quanto a sua pergunta, vou tentar pontuar algumas coisas, e espero contribuir:
    - Como o próprio Gardner descreve em seu livro "A nova ciência da mente" de 1996, o mesmo se embasa em grande parte na visão modular da mente muito difundida pelos trabalhos de Jerry Fodor que teve inspiração chomskiana..
    - A teoria da modularidade de Jerry Fodor é uma tentativa de descrever como a cognição dos seres humanos está organizada.
    - Na perspectiva da modularidade a mente possui diferentes módulos (mecanismos computacionais diferentes) e finalidades específicas, porém, podem ocorrer interações entre estes (principalmente na execução de pensamentos complexos).
    -A mente na visão modular, como Candiotto (2008) pontua, é um estado funcional do cérebro humano, sendo que, não possui estatuto ontológico separado do mesmo.

    É importante deixar claro que não sou especialista no assunto, e que quando desenvolvi meu trabalho acerca das inteligências múltiplas de Howard Gardner, apenas descrevi minha visão e entendimento sobre a teoria.

    REFERÊNCIAS:
    CANDIOTTO, Kleber Bez Birolo. Fundamentos epistemológicos da teoria modular da mente de Jerry A. Fodor. Trans/Form/Ação, São Paulo, 31(2): 119-135, 2008.

    CANDIOTTO, Kleber Bez Birolo. “Nova Síntese”: um diálogo inacabado entre Pinker e Fodor. Rev. Filos., Aurora, Curitiba, v. 22, n. 30, p. 153-177, jan./jun. 2010.

    GARDNER, Howard. A nova ciência da mente. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.

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