16 de junho de 2014

Grupo de Pesquisa vai realizar mesa redonda sobre 'A inflação da neurociência'

No dia 05 de julho, o Grupo de Pesquisa em Filosofia da Mente e Ciências Cognitivas promove a mesa redonda A inflação da neurociência, que contará com a participação do antropólogo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Jean Segata, e do filósofo e coordenador do grupo de pesquisa, Nivaldo Machado.

O evento vai iniciar às 14h, na sala 308 da Unidavi, em Rio do Sul (SC). Abaixo, o texto escrito pelo professor Jean Segata apresenta algumas das questões que vão nortear os debates:

O Cérebro e a Filosofia


Nunca foi tão importante ter cérebro, até mesmo, na Filosofia. É claro, dito assim, parece um insulto ou no melhor dos casos, uma provocação boba. Mas talvez se possa extrair daí alguma consequência sobre esse namoro recente entre Filosofia e Neurociência. Que operamos analiticamente diante de determinadas situações, desenvolvemos capacidades volitivas ou de conhecimento, enfim, que pensamos, não parece ser nenhuma grande descoberta. A bem da verdade, talvez uma das questões que ainda anime, e muito, a Filosofia se situe no âmbito do “como” fazemos tudo isso. Mas esse não é o ponto. A questão pungente está na aparente naturalização com a qual esses processos foram associados às atividades de um cérebro. Em termos mais amplos, trata-se de um movimento em que certas descobertas sobre o cérebro produziram uma imensa quantidade de efeitos nas ciências recentes, na vida comum e até mesmo na Filosofia - sim, porque entre outras coisas, sabedoria não é sinônimo de conhecimento, conhecimento, não implica em pensamento e todas essas coisas nem sempre foram aferidas a um órgão em especial. Sem avançar na direção do passado da disciplina, tome-se como exemplo um trabalho que pode ser dito como o mito de origem da Filosofia da Mente. Trata-se do interessante livro de Gilbert Ryle, intitulado The Concept of Mind, de 1949. Ali, o autor expressa um conjunto de críticas ao dualismo substancial de René Descartes - que Ryle chama de “doutrina oficial”. Nela, temos o que ele se refere como sendo um fantasma em uma máquina, onde o primeiro seria a mente e o segundo, o corpo. O curioso é que Ryle usa apenas duas vezes o termo cérebro ao longo das 328 páginas do seu livro. Aliás, os dois registros acontecem em um mesmo parágrafo, na parte In My Head do capítulo Knowing How and Knowing That, e não trazem implicações diretas entre mente e aquele órgão em particular. Então, por que o cérebro se tornou o centro de um debate contemporâneo sobre o funcionamento da mente e, por conseguinte, para a Filosofia da Mente? Essa é a primeira questão a ser explorada. A segunda, deriva dessa e diz respeito a um cruzamento de especialidades, no que se tem proclamado como Filosofia da Neurociência. Muito do que hoje se conhece a respeito do cérebro se deve aos avanços da Neurociência, é claro, e não da Filosofia. Vivemos hoje, o que se anuncia como sendo “o século do cérebro” – ele responde por nossos comportamentos, emoções, sentidos e até mesmo, por nossas inclinações ditas culturais ou sociais. Tecnologias de neuroimagem têm produzido cada vez mais dados sobre o seu funcionamento, ainda que não tenham, até então, encontrado a mente. Mas esse também não é o ponto. A questão é que a validade desses dados é algo questionável – como parte da biologia, a neurociência se ocupa com as formas e funções daquele órgão, mas em muito pouco tem se desvencilhado de um modelo de ciência moderna, pensada para “objetos exatos”. Isso produz uma ideia de universalização/padronização do cérebro, que tende a desconsiderar as relações entre o funcionamento desse órgão e os ambientes externos – o que pode se tornar problemático tanto para a ideia de ciência, como para o tipo de resultado que ela produz. E não é só isso, a qualidade de ciência da neurociência ainda pode ser contestada na própria posição que ela ocupa no cenário da Filosofia. Por que ela não é parte da preocupação da Filosofia da Ciência? Haveria alguma qualidade em particular que a torne distintiva das demais ciências e que assim exija um esforço diferenciado em termos epistemológicos? Ou ainda, estaria a Filosofia caminhando para uma postura epistemológica relativista, especialmente a partir de suas recentes especializações – Filosofia da Ciência, Filosofia da Tecnologia, Filosofia da Biologia, Filosofia da Mente, por exemplo – produzindo critérios e ferramentas analíticas diferentes, que atendam mais às qualidades de seus objetos do que de suas posturas? A descoberta do cérebro talvez não traga soluções definitivas para problemas básicos da Filosofia, como o de como conhecemos, mas pode, certamente, fazer aparecer alguns problemas sobre como organizamos certas explicações recentes na Filosofia da Mente.



Jean Segata é antropólogo,
professor do Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte


42 comentários:



  1. Vou esperar para assistir o que o Jean e o Nivaldo têm para falar sobre cérebro e mente.
    Eu tenho algumas perguntas, se deixar eu pergunto mesmo. Mas, primeiro, vou assistir e aprender.

    Abraços,

    Edson stofela

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  2. Jean,

    duas de suas questões apontadas neste texto me colocaram uma dúvida.

    1) por que o cérebro se tornou o centro de um debate contemporâneo sobre o funcionamento da mente e, por conseguinte, para a Filosofia da Mente?

    2) Por que ela [neurociência] não é parte da preocupação da Filosofia da Ciência? Haveria alguma qualidade em particular que a torne distintiva das demais ciências e que assim exija um esforço diferenciado em termos epistemológicos?

    Minha dúvida é: pode-se dizer que (1) e (2) são questões de antropologia? ou seriam questões de sociologia? Ou talvez ainda de história da ciência, que como tais, só poderão ser respondidas com o passar dos anos e dos desenvolvimentos da ciência e da filosofia?

    É que ao que me parece, a melhor maneira de responder de maneira séria a tais questões seria apelando à experiência, fazendo entrevistas com os profissionais que trabalham com as áreas de pesquisa envolvidas. No caso de (2), caberia perguntar aos filósofos da ciência porque não dar mais destaque à ciência do cérebro, em detrimento da física (que em seus mais recentes desenvolvimentos, aliás, está muito longe de ser o que o senso comum acredita ser uma "ciência exata"), fazer questionários, etc.
    Já para responder (1) suponho que podem ser feitas avaliações históricas, surveys, entrevistas com filósofos e cientistas, etc.
    Veja que estou apenas chutando aqui, porque realmente não tenho intimidade com os métodos mais apropriados para responder tais questões que você coloca. Mas penso que deu para entender minha curiosidade.

    O que você me diz?

    ps: estou aqui claramente pressupondo que, deixando de lado algumas questões de fronteira, as diferentes disciplinas do conhecimento humano vêm afiando suas ferramentas para responder a tipos muito específicos de problemas. Filósofos especializaram-se em problemas conceituais de um tipo muito geral, assim como antropólogos se especializaram em certas questões sobre o comportamento humano e animal em geral; historiadores, físicos, etc.

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  3. Oi Eduardo,

    Olha, vou te dar um sim e te devolver a questão. O sim é se essa é uma pergunta que interessa à antropologia. Nem a toda ela, é claro. Na verdade, uma parte muito pequena dela, que se interessa não apenas pelos ditos "conhecimentos tradicionais", mas também por aqueles constituídos no interior de laboratórios, academias, etc. - e que em geral, chamamos de científicos. Antropologia da Ciência, para dar um nome. No entanto, diferente dos interesses que filósofos têm por isso (a coerência dos discursos/conceitos), os antropólogos, em geral, estão preocupados com condições de produção de dados, fatos e, é claro dos ditos enunciados de verdade, que resultam disso. Mais que isso, e em especial, interessam os efeitos dessa produção - como no caso da neurociência, de sociedades que acionam cada vez mais um vocabulário cerebral (sinopses, neurônios, meia dúzia de proteínas e outras dúzias de neuropatologias, em geral, numa confusão entre mística, neurologia, psiquiatria e psicologia). O desenvolvimento de indústria farmacêutica, a combinação cérebro e genética para a definição de tipos humanos, etc.

    Mas eu volto à questão: parece que não se questiona muito a centralidade do cérebro na Filosofia da Mente. Com a minha pergunta, e é claro, mal formulada como devem ser as perguntas dos não especialistas, eu queria saber se a mente tem alguma coisa a ver com o cérebro ou vice versa. Por que, para quem é meio perdido como eu, isso parece uma espécie de collage, como nos quadros surrealistas - de duas coisas de naturezas diferentes numa mesma composição. Entenda, que sou muito avesso às explicações metafísicas de mente - mas me parece naturalizada aqui uma aposta materialista. E quando eu digo aposta, eu quero dizer que, de fato, na neurologia eu não vejo nada que indique "a mente". Isso é libertador, para a Filosofia da Mente, que poderia procurar a sua ocupação na pele, no estômago ou no intestino. Mas aí parece óbvio que não posso estar certo. A mente não combina com estômago. Certo? Mas por que combinaria com cérebro? É a obviedade da coisa que me preocupa.

    Agora, quanto a questão do porquê de físicos despertarem mais o interesse de filósofos do que os biólogos, eu não sei responder. Talvez, fosse histórica a minha resposta, no sentido de dizer que a primeira se resolveu e convenceu melhor que a segunda, ao menos nos dois últimos séculos. O que me preocupa são filósofos tentando abrir essas novas frentes, com critérios específicos de avaliação. Isso me cheira a relativismo - coisa tal, que nós antropólogos somos sempre objeto de acusação negativa por parte de alguns filósofos.

    Por fim, discutir a centralidade atual do cérebro por meio de investigações históricas pode ser um recurso interessante. Aliás, para outros casos ele já foi muito empregado e com interessantes respostas. Mas eu tenho minhas preocupações com isso, em especial, numa outra questão: é a filosofia um tipo de empreendimento cumulativo?

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  4. Edson,
    Não deposite muitas fichas em mim. Não tenho muito a oferecer nessa discussão. Sou amigo de quem discute isso, e porque ele tem paciência comigo, acabou por me chamar. É claro, isso não me livra do desafio posto no convite para participar dessa mesa, e que sei lá o porquê, eu aceitei. Ao menos, você poderá se divertir com meus equívocos.

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  5. Primeira objeção formal: Jean, eu te convidei para discutir esta temática certamente por causa de nossa amizade. Entretanto, a causa-causante da amizade é que implica, de modo indiscutível, na causa primeira do convite. OK, devem estar se perguntando: Oras! Mas o que causa a amizade (neste caso, do tal do Nivaldo é claro)... Respondendo: SEMPRE SERÁ A ADMIRAÇÃO INTELECTUAL!

    Jean, Creio ter refutado o que disseste ao Edson de modo evidente!!
    ............................................após essa nota necessária... vou começar também a me meter na discussão....

    Certamente o título INFLAÇÃO DAS NEUROCIÊNCIAS tem por escopo instigar e, se conseguir, fazer com que nossas discussões ajudem a filósofos, cientistas, antropólogos... ou como gosto de dizer: PESQUISADORES SÉRIOS - a perceberem da grande necessidade que temos de melhorar/refinar as discussões/pesquisas que ocorrem e que se relacionam com as neurociências. Certamente após o uso do termo NEURO praticamente toda uma infinidade de áreas do conhecimento parecem poder estar relacionadas (NEUROdireito, NEUROciência, NEUROética, NEUROestética, NEUROvaleTudo...).

    Notem, minha primeira preocupação está exatamente aí: no uso extremamente despreocupado do termo NEURO. A partir disso, creio que muitos problemas sérios teremos que enfrentar, tais como:
    i) Neurociência é uma ciência? Se sim, em quais moldes?
    ii)Poderei fazer uma filosofia do cérebro?
    iii) Poderá a própria atividade científica/filosófica ser resultado da ação (ou qualquer outro poder) do cérebro?
    iv) será mesmo possível demarcar o âmbito do cerebral desvinculado do mental?
    v) poderei desenvolver tecnologia para o mental e para o cerebral?
    vi) será possível uma neurociência robótica?
    vii) Neurociência: qual o seu "tamanho...até onde você vai?"

    *em especial para o Eduardo: SE eu utilizo do meu cérebro/mente para investigar acerca das coisas... poderei usar dele para entendê-lo?? Não estaríamos utilizando um manual escrito na linguagem que eu não conheço para ensinar como devo aprender a conhecê-lo!?

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  6. Será uma mesa redondo muito interessante. Dois ótimos pesquisadores tratando de um dos maiores impasses da Filosofia da Mente, a distinção mente x cérebro. Nesse sentido aproveito para elogiar o Professor Jean Segata que, como sempre, articula muito bem seus textos.



    Em determinada parte do texto é citado o nome do filósofo francês René Descartes. A citação desse filósofo é a prova de que ainda não se conseguiu enterrar por completo o pensamento dualista. Certamente, dentro do meio filosófico o dualismo cartesiano não tenha a mesma força de outrora. Contudo, o dualismo foi se moldadando e aprimorando, de modo que atualmente possuem versões “menos radicais” de dualismo, tais como o dualismo de propriedade e outros. Atualmente, o cenário esta voltado para o materialismo, que poderá ter na neurociência um importante aliado para demonstrar/comprovar seus constructos, conforme sugere Paul Churchland, em sua obra Matéria e Consciência: Uma Introdução Contemporânea Á Filosofia da Mente, de 2004.



    Porém, talvez se esteja atribuindo às neurociências um encargo que ela não poderá arcar, o que eu modestamente acredito que vá acontecer. Como sugere o tópico da discussão, tem-se uma inflação nas neurociências. Tudo está transofrmando-se em “neuro-alguma-coisa” e isso me preocupa. Acredito que a ciência perde muito quando abordagens meramente inflacionárias são levadas em consideração.



    Hodiernamente achamos tolo a ideia original de Descartes que a união das substancias alma (mente) x corpo se daria na glândula pineal. Contudo, achar que a mente emerge do cérebro ou é o mesmo que esse nos parece perfeitamente normal. Esse tipo de questionamento me faz reforçar as indagações do Professor Jean no comentário a cima, por que o cérebro? Não poderia ser o estomago ou qualquer outro órgão? O questionamento pode parecer rude, mas não tenho um motivo imediato para considerar ao contrário.

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  8. Quando vocês permitem que mais alunos conheçam informações diversas, estão desenvolvendo a pesquisa e proporcionando isto. Estar lendo e pesquisando, é uma aventura que tenho, talvez por causa do meu nome, “Edson” nome similar com aquele (Thomas Edison). Importante encontro se fará aqui na UNIDAVI, através de vocês. Seja Bem-vindo, e é claro, se divertindo, pois isso é uma qualidade muito massa, e quando isso acontece o tempo voa.

    Parabéns ao Nivaldo Machado e a você, Jean Segata, por este encontro aqui em rio o sul. Que vocês norteiem muitas vezes encontros deste porte, onde alias certamente, muitas outras universidades gostariam de apresentar.

    Um Grande Abraço,

    Edson Stofela

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  9. Olha Edson,
    Talvez a maior contribuição que eu possa levar seja o meu testemunho de que fazes parte de um grupo de pesquisa que tem alguma repercussão fora da instituição onde estudas. Quando eu digo "alguma", quer ser positivo, mas também protestante. Isso porque, há um ano afastado daí, eu posso notar que a única atividade de cunho reflexivo/analítico ou científico que tem alguma visibilidade externa, é esse grupo. Apresentei o blog e levei alguns dos livros organizados pelo Prof. Nivaldo Machado às pessoas envolvidas nas neurociências (que Natal e UFRN são pólos internacionais, por abrigarem os laboratórios do Prof. Miguel Nicolelis e do Prof. Sidarta Ribeiro, respectivamente) e essas iniciativas foram muito elogiadas. Bem, você sabe que se colocar na ponta do lápis os grupos sistematicamente organizados no Brasil em Filosofia da Mente, mal se chega a encher duas mãos de dedos. Então, nesse sentido, vocês são privilegiados. Porém, um privilégio que se dá às custas da teimosia do Prof. Nivaldo Machado e da insistente parceria de vocês, porque pela qualidade do apoio que a instituição dá a esse trabalho, ele não teria completado 10 anos. Aliás, ele não teria completado um mês, aliás... ele nunca teria existido. É vergonhosa a desvalorização institucional do trabalho. Eu mesmo já fui crítico do grupo muitas vezes, o Prof. Nivaldo Machado sabe disso, mas tenho hoje a consciência de que as faltas dele, são faltas da instituição, na sua omissão... Será bom rever os amigos, conhecer os novos integrantes. Sobretudo, será bom participar da única iniciativa séria que tem aí.

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  10. Eduardo,
    Analisando um pouco do que eu pretendo levar ao grupo na semana que vem, notei que a história ocupa um lugar muito especial sim na minha fala. No entanto, de antemão, quero esclarecer que me incomoda muito a ideia de acionar a história como um metadiscurso, cuja função seja a de produzir alguma coerência a um amontoado de fatos ou eventos não causais entre si. Esse é o artifício mais comum de uma série de historiadores e filósofos da ciência - e desconsidere a homogeneização dessa lista, eu falo aqui de G. Bachelard, M. Foucault, H. Poincaré, G. Canguilhem, T. Kuhn, e em alguma medida, K. Popper ou I. Hacking. Isso não é de um todo ruim, mas nunca fica explícito que se trata de uma estratégia, de um recurso discursivo. A história, como que uma espécie de ferro de passar roupas, alisa (externamente) uma série de frisos e dobras e isso é tomado naturalmente no processo. Assim, não penso que a história possa explicar alguma coisa sobre a recente centralidade que o cérebro assumiu em uma série de debates. É a história que precisa ser recortada a partir de evento. A história, do meu ponto de vista, não produz explicação, a explicação é que produz história.

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  11. Elizeu,

    Sua preocupação em saber quais os motivos e suas devidas justificações para eleger o cérebro como algo privilegiado em relação aos demais órgãos/estruturas do corpo está muito longe de ser uma preocupação infundada!

    Concordo com você que, salvo o apelo a "possíveis evidências incontestáveis", me parece que, a princípio, não existe um motivo evidente para termos o cérebro como esta entidade privilegiada! E também concordo de que não está assim não claro o sepultamento de abordagens com elevada carga dualista (mesmo eu particularmente não sendo um apreciador desta perspectiva...OK!).

    Para tentar contribuir com tua preocupação:
    1) Como justificar cabalmente que é o e no cérebro que o conhecimento se faz/apresenta/elabora...
    2) Quais são os critérios para podermos colocar o cérebro numa instância hierarquicamente superior aos demais órgãos do corpo (mesmo que seja apenas em relação aos aspectos cognitivos)...
    3) (essa para complicar mesmo)... SE tenho a impressão de que ficaria muito difícil elaborar mentalmente um simples cálculo como "2+3=?" desprovido de meu cérebro... E SE me parece muito difícil dizer quais as instâncias corpóreas da mesma operação matemática... Talvez eu venha também a ter que responder como eventos muito provavelmente não materiais se relacionariam com as sinapses por exemplo!?

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  12. Olá Nivaldo,


    Vejamos se entendi sua questão. "Será possível usar o cérebro para entender o cérebro?"

    Minha resposta, de alguém que não é da área, é que sim, parece óbvio que sabemos hoje muitíssimas coisas sobre o cérebro. Não vejo motivos para se duvidar disso. Se entender o cérebro significa ter conhecimento proposicional sobre o cérebro, e sendo esse é o tipo relevante de conhecimento envolvido com a ciência, a resposta parece ser afirmativa. Seria interessante, no entanto, ler algum artigo científico sobre essa questão. Infelizmente, não conheço nenhum artigo assim.

    Sobre a história de usar um manual numa lingua desconhecida, para tentar entender esse próprio manual, me parece algo bizarro. Esse manual é um manual dele próprio? Sempre achei que manuais fossem feitos para ensinar a usar algum outro produto, diferente deles próprios.

    Um abraço

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  13. Primeiramente, parabéns pelo texto Professor Jean Segata, certamente será uma excelente mesa redonda acerca da temática, visto sua qualidade intelectual e do Professor Nivaldo Machado. No demais, a questão que mais me instiga em relação ao cérebro e como você mesmo cita no final é acerca do conhecimento. Quais "processos mentais envolvidos" se é que é adequado utilizar tal expressão e como tudo isso é representado, visto que hoje a filosofia tange acentuadas críticas a forma como a Psicologia Cognitiva define tais processos.

    Certamente a Psicologia é responsável por muitos equívocos em torno da mesma, porém acredito que a filosofia e a neurociência possam contribuir muito para uma melhor definição e aprimoramento em torno da temática.

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  14. Eduardo,

    Note, o que quis levantar foi justamente a questão de que talvez seja também bizarro utilizar do cérebro para tratar acerca do cérebro, da mesma maneira que possa parecer (e eu sinceramente acho que sim) bizarro utilizar um manual em linguagem que não conheço para ensinar tal linguagem.
    Veja, se o cérebro for o elemento privilegiado para o conhecimento (seja lá do que for e como for, pelo menos por enquanto ok!), e se eu não conheço o suficiente deste mesmo cérebro, e se eu necessariamente utilizo deste cérebro para discutir este assunto (como estou fazendo agora... pelo menos eu acho que sim. Ou como dizes, que parece óbvio que hoje sabemos muitas coisas sobre o cérebro e etc...)... note, não me parece que seja assim tão:
    i) óbvio em relação ao cérebro;
    ii) bizarro em relação ao manual que ensina uma linguagem escrito justamente na linguagem que eu nada sei (ou saiba pouco... muito pouco).

    logo, me parece que o cérebro, neste caso, possa estar para o manual que ensina uma linguagem desconhecida escrito nesta linguagem desconhecida, assim como esse mesmo manual esteja na mesma proporção relacional para o cérebro utilizado que eu nada ou quase nada conheço em relação ao conhecimento tentando ele mesmo explicar este mesmo processo...OK!

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  15. Ok Nivaldo,

    sempre podemos estar enganados, acreditar em falsidades. Porém, me parece muito difícil que alguém realmente duvide de que aparentemente sabemos várias coisas sobre o cérebro humano. Para duvidar disso, seria preciso duvidar da própria possibilidade do conhecimento. Seria como matar uma mosca com um tiro de canhão. Não só não saberíamos nada sobre o cérebro, não saberíamos coisa alguma. Vou assumir aqui que você não está tomando esse caminho.

    Você pode, no entanto, duvidar que sabemos algumas coisas sobre o cérebro, colocando em dúvida a justificação que temos para acreditar em tais coisas, e.g. duvidar que a saudade está à cm do lobo occipital, justamente porque não temos qqr justificação para acreditar em tal coisa. O problema é que, para colocar em dúvida nosso conhecimento sobre o cérebro com seriedade, por este caminho, precisaríamos de boas razões para tal. Vc precisaria apresentar boa objeções para cada uma das coisas que supomos saber sobre o cérebro. Suponho que vc não dispõe de tais objeções.

    Algo que pode causar certa confusão é que alguém poderia confundir "conhecer o cérebro" com conhecer o seu próprio cérebro, assim como eu conheço uma pessoa ou uma cidade. Isso obviamente parece impossível, dada a localização dos cérebros das pessoas, dentro de suas cabeças. Certamente ninguém encontrará seu cérebro passeando pela rua. A leitura correta da expressão "conhecer o cérebro" deve ser "ter conhecimento proposicional sobre o cérebro humano". Quando um cientista descobre coisas sobre o olho humano, certamente ele pode usar seu próprio olho no processo. Mas ele não precisa ter conhecimento por contato com seu próprio olho (como aquele que temos de pessoas e cidades) para ter conhecimento proposicional sobre o olho humano.

    Com essa distinção em mente, parece razoável que o cientista possa saber coisas sobre o seu próprio cérebro, ainda que nunca venha a o encontrar passeando pela rua. Isso porque estamos entendendo "saber" como conhecimento proposicional, e não por contato. E lembrando que é esse o tipo de conhecimento relevante para a ciência/filosofia, saber proposicional, saber que.

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  16. Eduardo,

    O que estamos tentando fazer é discutir acerca da possibilidade da "neuro ser uma ciência" e dos critérios que a demarcariam enquanto tal.
    Outro aspecto que hoje ocupa muito dos nossos trabalhos é da possibilidade do cérebro/mente (nos seus mais variados aspectos e relações) poderem ser responsáveis por preocupações/investigações/atitudes do tipo filosóficas? Se isso for possível, certamente estivemos durante muito tempo nos preocupando em tratar problemas cujas própria tratabilidade talvez esteja na própria formulação do problema em si. Ou como gosto muito de dizer: TALVEZ O PROBLEMA SEJA ELE!

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  17. Eduardo e demais amigos,

    Quero também dar um exemplo que talvez possa auxiliar no entendimento dos motivos pelos quais eu entendo ser tão conveniente uma discussão plural e séria sobre as neurociências... Vejamos o caso, exemplarmente é claro, do que hoje ocorre com a psicologia no Brasil. Vou enfatizar a absurda quantidade de publicações e "inovações" que a todo momento aparecem em áreas como Terapias Cognitivas e Comportamentais (ou as duas juntas como também já é moda!). Qualquer estudioso sério sabe que as Ciências Cognitivas DEVERIAM estar diretamente implicadas nos estudos da psicologia cognitiva, e, esta por sua vez, nas terapias cognitivas (e suas correlações). Entretanto, se formos olhar seriamente, vamos ver que cada vez mais um enorme hiato está surgindo entre tais instâncias. E, em vários momentos, se formos observar o que se propõe em terapias desta área, elas parecem não ter qualquer vínculo com a própria ciência cognitiva de base....E ISSO É MUITO PERIGOSO!

    Neste mesmo caminho..... as neurociências estão na moda.... isso é perigoso também....

    Creio que as bases de uma ciência e de uma epistemologia acerca dessa tal neurociência estejam ficando tão distantes das ditas inovações das neurociências quanto a terapia cognitiva esteja, em muito casos, distante de sua ciência... E ISSO É PERIGOSO!

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  18. Opa (Parte I),
    Eu tenho razões o suficiente para acreditar que eu seja inteligente ao ponto de saber que eu sou ignorante demais para ir pelo mesmo caminho que o Nivaldo e o Eduardo rumaram aqui. Não tenho ferramentas teóricas ou analíticas para isso. Eu me refiro, em especial, ao debate que vocês começaram a dar corpo aí sobre se é possível usar o cérebro para estudar o cérebro (ou uma linguagem ainda desconhecida para conhecer algo ou ainda, se não podemos estar enganados…). Pois bem, na minha pobreza, eu fico com a lembrança de que aquele senhor simpático, Edmund Gettier, já deu o tom desse debate - de que a definição tripartite, que herdamos daqueles curiosos diálogos platônicos Teeteto, apesar de conterem as condições necessárias, não são suficientes para uma análise correta do conceito de conhecimento. Isso, porque, como ele bem contra exemplificou (no ensaio Is Justified True Belief Knowledge?, de 1963), o tal do sujeito epistêmico pode ter crenças justificadas, mas que são, apenas, verdadeiras por acidente. Podemos estar enganados, como podemos conhecer algo a partir do desconhecido, por um acaso, por intuição ou por sorte. E pelo que se diz por aí, sorte não é conhecimento (se bem que eu gosto muito desse debate, e da tônica dada a ele por Duncan Pritchard e a sua “Sorte Epistêmica” - se alguém quiser, eu tenho uns 10 livros dele, muitos em PDF [ou encontrem, por sorte!]).
    A questão é que na antropologia nossas preocupações são diferentes. Não estamos, fundamentalmente, preocupados no “saber que” que o Eduardo insiste. Sou um admirador disso, mas perdoem-me a falta de modos, isso é fetiche de epistemólogo. E não digo isso por mal. Alguém haveria de se interessar pela natureza do conhecimento, se há ou não coerência interna no discurso A ou B, se se trata de uma crença verdadeira e justificada. Eu conheço gente que se interessa por fungos, por tipos de solo, pelo passado, pelo futuro, por música, e até por cérebros - e estão fundamentalmente preocupados em “saber como” essas coisas são ou funcionam e não em “saber que” são ou não alguma coisa e como eles podem ter a certeza que sabem disso. Enfim, cada um tem um gosto! Mas voltando a antropologia, o que pretendemos fazer, de alguma forma muito rasa de se explicar, é uma espécie de exorcismo da diferença. Quando eu digo exorcismo, não pensem que eu falo de algo no sentido religioso da coisa - quer dizer, em algum ponto sim. Exorcizar, na sua etimologia, é tornar visível, colocar para fora, fazer aparecer. Quando eu digo que quero exorcizar a diferença, significa que eu quero fazer aparecer a diferença. E lembrem, outra palavra chave no mundo da antropologia é alteridade. Enfim, para encurtar o caldo, fazer aparecer esse outro. Aqui mora o cerne do nosso trabalho - para eu poder fazer aparecer esse outro, eu preciso conhecer esse outro (pensem qualquer coisa que sabemos que não existe assim quando eu digo outro - outra cultura, outra sociedade, outro ser humano, outra forma de conhecer as coisas). Pois bem, eu não tenho razões suficientes para afirmar que eu conheço “o eu”, que dirá conhecer o outro e como outro conhece alguma coisa! Nesse caso, para não arriscar muito, eu não vou abusar da tal “sorte epistêmica”, tampouco do tal do relativismo. Então, por questões mais éticas do que metodológicas, a epistemologia não é minha melhor ferramenta - isso porque, ao emprega-la na forma com a filosofia analítica a empregaria, eu faria uma espécie de “epistemocídio” (para usar uma expressão bem curiosa daquele holandês que escreveu sobre razão e cultura - Bob Scholte). Quero dizer, eu mataria qualquer possibilidade de conhecer a forma como o outro conhece, simplesmente pelo fato de que se ele conhece de uma forma que não é aquela que cabe na minha fórmula de conhecer, eu tenderia a subjuga-lo como falso, errado, incorreto, equivocado, quando o equívoco, seria o meu (para usar a manjada expressão do Nivaldo, nesse caso, o problema estaria no problema ou mais precisamente, na ferramenta).

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  19. Opa (Parte II),
    A essa altura da leitura, o Eduardo já deve estar pensando - mas que droga é essa, então o Jean não se tocou de que é impossível conhecer o outro se eu não posso usar a minha ferramenta de conhecimento para conhecê-lo? Ou, como eu vou conhecer o outro desprovido de ferramentas de conhecimento? E eu respondo, é claro. É isso mesmo. Não conhecemos. não temos razões para acreditar que podemos fazer isso. No melhor dos casos, coincidimos. O outro dispõe de certos quadros de referência que ele usa para conhecer (representar o mundo), eu uso certos quadros de referência que isso para o mesmo fim, e em alguns casos, para conhecer o modo como ele conhece (representar as formas de representação dele). Para quem se lembra de mim, eu sou o aquele rapaz lá de Lontras/SC que gosta de Nelson Goodman e de mais meia dúzia de nominalistas/construtivistas/irrealistas, para quem representar é construir. Nesse caso, eu sustento que o mais razoavelmente eu posso fazer é uma versão - como o outro faz de mim. É uma espécie de limite da minha linguagem com o limite da linguagem do outro. Olha, exemplo prático disso. Alguém já viu a cultura? Eu não. Mas quando eu viajo para algum lugar diferente, parece que eu vejo. Trata-se daquele momento em que eu me iludo, eu invento para mim mesmo uma espécie de cultura com a qual, por contraste, eu posso conhecer a cultura do outro (que também não existe fora desse efeito de relações). O ponto é que, assim como Ryle tratava a mente meramente como um conceito e não uma substância, na antropologia, temos muito claro que cultura, sociedade ou sei lá o que que usam para dizer que é o nosso “objeto de estudo”, não é uma substância, mas um conceito - cultura não passa de uma ferramenta que os antropólogos “tem na cabeça” (desculpa a piada), para descrever um conjunto desordenado de diferenças (das coisas dos outros). Aliás, é por isso que no dia 05 eu escolhi o Montaigne para abrir a minha fala - e adianto ela aqui: todos sabemos desde ele, que a crença não é um estado mental, mas um efeito de relações entre eu e o outro. Um exemplo disso é a famosa anedota sobre a chegada dos portugueses às costas africanas. Quando viram alguns nativos rezando para alguns bonecos de barro, eles fizeram pouco caso, e logo trataram de explicar para para aqueles “primitivos” que aquilo não era deus, mas só uma estatueta feita por um artesão do cais. Os nativos, prontamente retrucaram, perguntando se aqueles crucifixos que os portugueses traziam pendurados ao seu pescoço seria então deus. Aos portugueses responderem que sim, os nativos prontamente se puseram a rir, dizendo que o mesmo artesão cais também sabia aqueles que eles traziam ao pescoço. Ou seja, não dá para fazer um tipo de empreendimento onde a gente sempre se dá bem às custas de “acreditar” que os “outros acreditam” (especialmente quando temos, por razões óbvias como essas da anedota, condições de justificar nossa crença de forma verdadeira). Isso é o tal do epistemocídio. As ferramentas da filosofia analítica servem, mais adequadamente, para o tipo de conhecimento produzido pelos próprios sujeitos epistêmicos que produziram essas ferramentas. Trata-se de algo bem delimitado (e aí use o que quiseres para delimitar isso - a história, o paradigma, a tradição, o diálogo entre Teeteto, Sócrates e Teodoro, etc. Enfim, Eduardo, eu sei que tu tens consciência disso, mas não custa lembrar: a epistemologia não é uma galinha, é um ovo - e o galinheiro é bem grande.

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  20. Opa (Parte III),
    Bom, o ponto central da mesa não é o cérebro em si. Nem se sabemos algo sobre ele ou se podemos (ou devemos) usar ele (e não a bílis ou o pâncreas) para conhecer o dos outros. Eu mesmo te disse isso, Eduardo, sobre quando eu entrei no Instituto do Cérebro, aqui em Natal, a primeira vez. Eu queria “ver”, como o cérebro funciona. Então fui ao laboratório dos sonhos e sono, ao laboratório da percepção, ao laboratório das sensações, etc. etc. (como naquela anedota sobre conhecer a USP, que o João de Fernandes Teixeira emprega no Mente, Cérebro e Cognição). O todo - o cérebro (substância) não estava lá. E, para ser mais preciso com a proposta da mesa, não é ele que nos interessa. Ao menos, não me interessa. Interasse-me o “cérebro discurso”, o conceito de cérebro ou melhor “o cérebro como conceito”. Já notou que ele é empregado para a descrição de um sem fim de fenômenos? Isso é o que na mesa está se chamando de “inflação”. Cérebro virou um conjunto vazio, um conceito de semântica sempre expansiva - ele sempre cabe em alguma nova explicação. E o melhor da coisa - que é onde entra a figura simples do antropólogo: as pessoas ordinárias (os não epistemólogos) têm consumido cada vez mais o conceito de cérebro (e aí, nem sempre como conceito, mas como substância explicativa). Nesse caso, interessa-me saber o que as pessoas descrevem com esse cérebro (não o delas, mas o conceito). Há um vocabulário cerebral que se mistura a outros vocabulários numa naturalidade não vista antes - cérebro, autoestima, depressão, neurônios, sinopses. As pessoas falam disso para explicaram seus estados de humor, para falar da sua rotina de trabalho. Agora a pouco, aqui na Arena das Dunas, eu podia dizer que notava italianos entristecidos (pelas razões aparentemente óbvias para isso). Mas eu poderia ter dito, italianos depressivos e, dificilmente alguém me corrigiria sobre isso, nem mesmo psicólogos ou psiquiatras. No mais das contas, quem sabe eles mesmos autorizariam algum italiano desse a se medicar com antidepressivo, para dormir melhor essa noite - plenamente justificado. Justificado? É claro que não. Tristeza aparente não é depressão, depressão é uma coisa bastante disputada por psicólogos, psiquiatras e neurologistas… Aliás, psiquiatras que são contra a descriminalização de coisas que eles chamam de droga, como por exemplo a maconha, sob a alegação de que o uso inapropriado de substâncias que alterem estados de humor é altamente perigoso. Mas espere: se o italiano estava aparentemente triste, e não com depressão e se antidepressivo se usa para o tratamento de depressão e não para dormir, não foi então um uso inadequado do medicamento - ele não se drogaria nesse caso? Enfim, não vou ficar nessas histórias que analíticos consideram superficiais. Mas volto a provocar - note “os efeitos” que essa inflação do cérebro ou da neurocientifização das coisas têm provocado. Pelo menos, da minha parte, como antropólogo, é isso que me faz interessante esse tema. Certamente, para o Nivaldo, o interesse seja outro - o de saber se podemos tratar estados cerebrais como estados mentais ou se haveria algum âmbito de demarcação seguro para o problema mente/cérebro (aliás, transformar essa relação misteriosa em um problema).

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  21. Nivaldo,

    entendo e partilho de suas preocupações. Não estou disputando-as.
    Mas isso nada tem a ver com a resposta que dei para sua pergunta, sobre a possibilidade de usar o cérebro para conhecer o cérebro. Sei que não é essa a questão principal do post e que foge da proposta de discussão da mesa. Só discuti ela porque tenho interesse nela =]

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  22. Jean (1),

    obrigado por expor em mais detalhes seus pensamentos sobre o tema. Sinto que não me fiz entender, quando acima apresentei algumas dúvidas que tinha sobre o seu texto. Eram de fato perguntas sinceras.

    Teria várias coisas a comentar sobre o que vc disse acima, mas me limitarei a algumas considerações.

    1) Não sei o que vc e o nivaldo entendem por "epistemologia". Para mim, esta palavra designa apenas uma certa área da filosofia que se interessa por problemas muito gerais sobre o conhecimento, e.g. a) o que é o conhecimento? b) será possível conhecer alguma coisa? c) o que é a justificação? d) como funciona a estrutura da justificação, etc.
    É isso que os filósofos tipicamente pensam que significa "epistemologia". Alguns fazem confusão e pensam que "epistemologia" é o mesmo que filosofia da ciência, etc. Sinceramente não estou nem aí para eles. Assim como eles não estão nem aí para mim. Mas qndo vc abre as boas revistas especializadas, lá estão filósofos usando a palavra "epistemologia" para tratar justamente dessas questões a-d que falei acima.

    2) A epistemologia, assim caracterizada, não tem qualquer pretensão de descrever como as pessoas comuns realmente pensam. Em que acreditam, como justificam suas crenças, etc. Não é disso que trata a epistemologia. Mais importante, a epistemologia não é uma ferramenta que os filósofos analíticos usam para conhecer o mundo.
    Na verdade, se vc quiser de fato conhecer o mundo, o último lugar que vc deve procurar é na epistemologia, hehe. Ela não vai ajudar em nada as pessoas que buscam saber coisas sobre o mundo. Vai só atrasá-las.

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  23. Jean (2),

    3) Acho que a única coisa que posso contribuir com o que vc falou acima é no ponto em que vc falou

    "Não estamos, fundamentalmente, preocupados no “saber que” que o Eduardo insiste. Sou um admirador disso, mas perdoem-me a falta de modos, isso é fetiche de epistemólogo. E não digo isso por mal. Alguém haveria de se interessar pela natureza do conhecimento, se há ou não coerência interna no discurso A ou B, se se trata de uma crença verdadeira e justificada. Eu conheço gente que se interessa por fungos, por tipos de solo, pelo passado, pelo futuro, por música, e até por cérebros - e estão fundamentalmente preocupados em “saber como” essas coisas são ou funcionam e não em “saber que” são ou não alguma coisa e como eles podem ter a certeza que sabem disso."

    Na verdade, qualquer um que tenha interesse cognitivo, em qualquer área do conhecimento, está interessado em conhecimento proposicional. Antropólogos estão interessados em saber coisas sobre seus objetos de estudo, assim como filósofos e biólogos estão. Biólogos, para usar um exemplo seu, estão interessados em saber coisas sobre os fungos. Estão interessados em ter conhecimento proposicional sobre os fungos. "Saber como" eles crescem, porque crescem, onde crescem, quantas espécies existem, como eles se reproduzem, etc. Isso tudo é conhecimento proposicional. Não há qqr fetiche aqui.

    Claro que um antropólogo, por exemplo, pode ter interesse também em outros tipos de conhecimento quando vai à campo. Além, por exemplo, de querer saber várias coisas sobre arcos e flechas, como funcionam, de quê são feitos, etc (conhecimento proposicional), podem querer aprender a usar um arco e flecha, saber como atirar uma flecha. Isso não é conhecimento proposicional, isso é conhecimento por habilidade. Envolve o treino de uma habilidade, a de atirar flechas. É claro que é perfeitamente possível saber tudo sobre arcos e flechas (conhecimento proposicional), sem no entanto ter a habilidade de atirar flechas (conhecimento por habilidade). Não há problema nenhum aqui.

    Antropólogos geralmente têm ainda interesse em outro tipo de conhecimento, o conhecimento por contato. Não querem apenas saber várias coisas sobre tribos, cachorros, pet shops, (conh. prop.). Querem ir até lá e viver naqueles ambientes, conhecer as pessoas envolvidas, conversar com elas, etc. A esse tipo de conhecimento nós chamamos "conhecimento por contato".

    O mais importante é: os filósofos não têm qualquer pretensão de dizer aos antropólogos ou a qualquer outra pessoa como investigar o mundo, em quê ter interesse, etc. Qndo digo que qqr um com interesse cognitivo em alguma coisa quer ter conhecimento proposicional sobre tal coisa, isso é apenas uma descrição de como as coisas funcionam. Quando estou interessado em aprender a atirar uma flecha, ou em conhecer uma nova cidade, não preciso ter interesse cognitivo em flechas e cidades. Só quero, num caso, adquirir uma certa habilidade, e no outro, ter uma certa experiência de vida.

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  24. Eduardo,

    Sua exposição foi esclarecedora. Especialmente, porque me faz voltar ao ponto inicial do debate:

    1.
    O interesse em conhecer a forma e o funcionamento do cérebro, é um "conhecimento preposicional", certo? Qualquer um pode tê-la, de pessoas comuns a filósofos ou iniciados/especialistas no campo, como neurocientistas, certo?

    Tem muitos mesmo que desejam um "conhecimento por contato" - e vão a laboratórios e colocam as próprias mãos em um cérebro (além de estudarem representações dele, por gráficos, imagens, etc), certo?

    Agora, se eu quisesse um "conhecimento por habilidade" sobre o cérebro, deveria eu fazer treinamentos lógicos, como pegadinhas ou joguinhos de almanaque? Ou bastaria eu pensar? Ou isso resumiria todo o problema da aprendizagem (tão mal abordado na psicologia)?

    2.
    O meu problema é saber aqui se é o cérebro que eu devo usar para ter conhecimento sobre o cérebro (nos três âmbitos: proposicional, por contato e por habilidade)?

    3.
    No que se justifica o interesse recente de filósofos

    - alguns dos quais desse ramo bem específico, da epistemologia, que como você bem delimitou: quer saber (a) o que é o conhecimento? (b) será possível conhecer alguma coisa? (c) o que é a justificação? (d) como funciona a estrutura da justificação? -

    pelo cérebro? Enfim, qual a relação entre saber o que é o conhecimento e conhecer o cérebro? Uma coisa está implicada em outra?

    4.
    Enfim, qual é a relação entre mente, cérebro e conhecimento? Se eu conhecer a mente e o cérebro (ou saber se ambas são a mesma coisa ou não) faz de mim um conhecedor do que é o conhecimento e de se é ou não possível conhecer algo?

    5.
    Em resumo: o que cérebro tem a ver com filosofia de um modo geral e com a epistemologia, em particular?

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  25. Eduardo (2),

    É claro, como um não especialista da área, todas essas minhas perguntas são bem bobas ou bem óbvias. Servem para animar o debate e é o máximo que consigo fazer. E nesse espírito, posso fazer mais:

    Já que lembrastes outro dia da história, essa tem a ver com ela.

    Ao longo da história da filosofia, algumas especialidades delas foram se desgarrando e virando ciências, em particular, certo? Aquele mito de que a filosofia é a mãe de todas as ciências (a aritmética, vira matemática, o atomismo, química, e etc. etc. não bem assim, mas nesse caminho).

    Nessa tendência, e imaginando que a neurociência tenha algum sucesso e dê boas razões para nos darmos por satisfeitos com as explicações dela sobre cérebro, comportamento, consciência, cognição e linguagem, a Filosofia da Mente terá ainda razão de existir?

    Perguntando de outra forma, seria a Neurociência o futuro da Filosofia da Mente?

    Caso sim, isso justifica esse interesse dela pelo cérebro, certo? Caso não, eu sei que é chato, mas pergunto de novo, aonde está, concretamente, a relação entre mente e cérebro?

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  26. Eduardo (3),

    É serio isso: e por isso vou fazer uma piada sobre todas essas perguntas que te fiz. Normalmente, as pessoas dizem despreocupadas:

    "isso nunca entrou na minha cabeça".

    Deveria eu dizer:

    a) "isso nunca entrou no meu cérebro"?
    b) "isso nunca entrou na minha mente"?

    Ou deveria tomar o sentido inverso:

    "isso nunca saiu..."

    Ou ainda:

    "tanto faz, é tudo a mesma coisa".

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  27. Jean,

    como não sou egoísta, vou deixar que os outros membros desse grupo, que devem estar acompanhando o debate, respondam algumas de suas questões.

    Me limitarei a responder algumas delas, por hora, com as quais tenho mais contato.

    "1.
    O interesse em conhecer a forma e o funcionamento do cérebro, é um "conhecimento proposicional", certo? Qualquer um pode tê-la, de pessoas comuns a filósofos ou iniciados/especialistas no campo, como neurocientistas, certo?"

    Sim, isso mesmo.

    "Tem muitos mesmo que desejam um "conhecimento por contato" - e vão a laboratórios e colocam as próprias mãos em um cérebro (além de estudarem representações dele, por gráficos, imagens, etc), certo?"

    Sim, isso mesmo, novamente.

    "Agora, se eu quisesse um "conhecimento por habilidade" sobre o cérebro, deveria eu fazer treinamentos lógicos, como pegadinhas ou joguinhos de almanaque? Ou bastaria eu pensar? Ou isso resumiria todo o problema da aprendizagem (tão mal abordado na psicologia)?"

    Neste caso não. Conhecimento por habilidade não pode ser sobre algum objeto, tem que ser sobre alguma atividade, e.g. andar de bicicleta. Ou, para usar o seu exemplo, resolver joguinhos de almanaque. Ou ainda, dissecar um cérebro humano.
    É claro que é preciso ter um cérebro, e que ele participa de todas essas atividades. Mas não precisa ser um cérebro humano. Primatas tbm aprendem muitas coisas "por habilidade"; sabem jogar joguinhos, alguns muito melhor que nós. Conhecimento? sim, por habilidade.

    "2.
    O meu problema é saber aqui se é o cérebro que eu devo usar para ter conhecimento sobre o cérebro (nos três âmbitos: proposicional, por contato e por habilidade)?"

    Bem, na minha opinião de não especialista em neurociência, vou chutar que de fato precisamos de um cérebro para ter tanto conhecimento proposicional, quanto por contato e por habilidade. Agora, quais as consequências a tirar disso? Na minha opinião, nenhuma consequência paradoxal maluca de que óh, isso non ecxiste, usar o cérebro para conhecer o próprio cérebro. Me parece que quando se faz os devidos esclarecimentos, o suposto paradoxo desaparece, como tentei fazer em comentários anteriores, respondendo o Nivaldo. Mas não sou infalível, posso estar enganado. O problema está sempre nos detalhes.


    "3.
    No que se justifica o interesse recente de filósofos"

    Só coloquei essa para dizer que não faço a mínima ideia. =]

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  28. Jean Segata

    Parabéns pelo texto, esta muito bem escrito e traz inquietação ao pensamento. Faço em seguida algumas considerações a respeito do seguinte trecho:

    “(...) estaria a Filosofia caminhando para uma postura epistemológica relativista, especialmente a partir de suas recentes especializações – Filosofia da Ciência, Filosofia da Tecnologia, Filosofia da Biologia, Filosofia da Mente, por exemplo – produzindo critérios e ferramentas analíticas diferentes, que atendam mais às qualidades de seus objetos do que de suas posturas?”

    Mas adequar os critérios de análise às características do objeto em vez de às dos investigadores não implica relativismo epistêmico. Pelo contrário, esta atitude é a negação cabal do relativismo. A diversidade de disciplinas e especializações é consequência da atitude sadia e antidogmática de se submeter a realidade a inquéritos abertos e intensos (chame-se a isto de ‘falibilismo’, caso queira dar um nome). As razões por que há filosofia da física, da tecnologia, da mente, da arte e tantas outras, são invariavelmente as mesmas que levam a biologia a se ramificar em ecologia, genética, botânica, histologia, bem como estas se ramificarem em outras tantas subdisciplinas. Se as especializações em filosofia acarretassem relativismo, as da biologia também. Mas daqui o relativismo passou longe.

    Em qualquer área de investigação séria, como é o caso da filosofia (não me refiro àquele engodo pós-modernista) o que se busca é angariar meios específicos para lidar com o recorte ou aspecto da realidade eleito, sabendo que os métodos genuinamente adequados só aparecem gradualmente enquanto se mantém a investigação aberta ao debate e à revisão. E essa postura leva irremediavelmente a diversidade de métodos, conceitos, teorias e disciplinas. O que é prolífero e nada tem com o relativismo, que é a tese não da diversidade epistêmica, mas do nivelamento epistêmico, isto é; a ideia de que a crença do pajé acerca do movimento dos astros é tão verdadeira quanto a do astrônomo ou que a mutilação do clitóris de uma pré-adolescente é um mal no interior da cultura ocidental, mas um bem moral em culturas em que tal prática é legitimada pelos costumes da população (nesse caso, um nivelamento ético). Não vou dizer aqui o que penso do relativismo, pois teria de recorrer ao baixo calão.

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  29. Agora, se por um lado é verdade que os instrumentos de análise podem variar, alguns aspectos e posturas jamais variam quando se trata de áreas de investigação intelectualmente probas. Como por exemplo o compromisso com a verdade, com a objetividade, com o rigor conceitual, com a coerência teórica, com a abertura ao debate e a revisão dos métodos e pressupostos, etc, etc. De modo que, mesmo a filosofia se ramificando em especializações, o espírito investigativo que as anima permanece o mesmo.

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  30. Marcus Vinícius,

    Primeiramente gostaria de dizer que compartilho em dois pontos fundamentais com você:
    1) minha preocupação com posturas relativistas (por mais que elas insistam em resistir, e, por vezes, parece que elas não são assim tão facilmente derrotadas!);
    ii) "Nihil est veritatis luce dulcius".... de fato, creio que se não formos guiados por algum tipo de amor a essa tal de verdade... parece que nosso trabalho fica Feio!

    Eduardo,

    Não sei se posso dividir tão facilmente o conhecimento nesses teus 3 tópicos: Proposicional, contato, habilidade. Sei que essa divisão ( que eu normalmente trocava o "contato" por "familiaridade" possam ser bastante didáticos e nos auxiliarem muito no que tange ao tratamento do conhecimento proposicional. Entretanto, creio que quando optas por essa divisão possas estar deixando de tratar implicações muito sérias de um conhecimento noutro (não vou nem tocar no fato retórico quando parafraseias o Pe. Quevedo (cuja habilidade em memorizar conhecimento era incrível (mesmo sem eu poder afirmar se ele utiliza do cérebro para realização de tal habilidade/contato/parte de uma suposta proposição!)).
    Eu te pergunto: posso ter conhecimento por contato de um conteúdo proposicional (como!?)? Posso ter a habilidade de ter melhor contato com tal e tal proposição? O conteúdo proposicional é adquirido através de que tipo de conhecimento por habilidade OU preciso ter contato?

    Note... posso formular uma gama de relações entre estes três tipos de conhecimento. Creio que didaticamente a divisão é MUITO interessante. Todavia, ela não encerra em hipótese alguma a questão que elenquei anteriormente sobre o problema de usar o cérebro que não conheço para tratar do conhecimento acerca deste próprio cérebro! Eu apenas tenho uma aposta de que "parece óbvio que utilizo do cérebro para estudar acerca do conhecimeto gerado/trabalhodo por ele"... mas, ainda, só parece, só tenho uma aposta (uma aposta que eu sei que tanto eu quanto você faríamos...OK!).... mas até o Gettier já mostrou que sorte é bacana, mas, nem sempre serve para resolver todos os problemas!

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  31. Caro Nivaldo

    Em primeiro lugar, você está certo quanto a preocupação a respeito da fundamentação das psicoterapias, sobretudo aqui no Brasil, em que muitas comunidades psicológicas recebem influências pós-modernistas do tipo “anticiência” e também porque estão emergindo uma variedade enorme de terapias cognitivas nos últimos tempos e nem todas encontram-se bem fundamentadas. Entretanto, as principais modalidades psicoterápicas cognitiva, comportamental e cognitivo-comportamental encontram-se bem consolidadas do ponto de vista teórico e evidencial. Essas práticas terapêuticas fundamentam-se em amplas evidências experimentais e clínicas e há abundantes publicações e estudos estatísticos atestando a eficácia delas. Ademais, se me é permitido lançar mão de uma evidência anedótica, pude constatar pessoalmente a eficácia dessas terapias em meu período de estágio clínico.

    O que se deve levar em consideração é que essas psicoterapias gozam de autonomia epistemológica e metodológica e sendo assim não precisam se sentir na obrigação de se situar inteiramente sob o manto de outras ciências nem de absorver seus métodos e vocabulários. Há uma infinidade de experimentos (milhares!) bem descritos atestando o fato de que a modelagem e a modificação do comportamento e da cognição podem ser realizadas pela manipulação de variáveis ontogenéticas e ambientais, a partir do emprego de técnicas específicas e de esquemas conceituais e teóricos descarregados de conteúdo neurológico. Em suma, isto pode ser realizado sem qualquer consideração a conhecimentos e evidências da neurologia e da ciência cognitiva mais básica (que se aproxima de uma engenharia). Atrevo-me a dizer que, em certo sentido, a neurociência depende mais da psicologia do que o oposto. A metodologia da psicologia experimental foi praticamente toda assimilada pelos protocolos experimentais das neurociências cognitivas para tornar possíveis as correlações entre estruturas neuronais e fenômenos da cognição e da consciência. Diga-se de passagem, um projeto como o do Nicolelis seria impensável sem a aplicação de esquemas de condicionamento respondente e operante importados da psicologia experimental. Isto sem levar em conta que parte dos conceitos que tornam inteligível qualquer investigação neurocientífica são importados da psicologia, como pensamento, consciência, percepção, memória, aprendizagem, intenção, só para citar alguns exemplos.

    Contudo, apesar da autonomia, há abundantes evidências atestando que métodos psicoterápicos, como a reestruturação cognitiva e dessensibilização sistemática, ao produzem cognições e comportamentos mais adaptados e extinguirem os disfuncionais (é isso que eles fazem), modificam o metabolismo e a microestrutura do córtex, revelando assim a base material pela qual essas terapias produzem seus resultados. A autonomia científica dessas práticas terapêuticas não significa portanto uma desconexão ou alienação das neurociências, o que sem dúvida é importante (também estamos em acordo nesse ponto). Mas o interessante é elas já funcionavam mesmo antes de se saber que causavam impacto no cérebro, assim como a teoria da evolução e a genética mendeliana já funcionavam muito bem antes do advento da biologia molecular e da engenharia genética. Essas ciências posteriores apenas aumentam o crédito das anteriores ao acrescentarem outros tipos de evidências em adição as que elas já tinham.

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  32. Tudo isso nos leva a pelo menos três pontos importantes. O primeiro, penso, poderá aliviar um pouco aquela sua preocupação, que considero legítima. Trata se do fato de que, de uma forma significativa, essas terapias implicam pressupostos mais fundamentais, como os da psicologia cognitiva e da neurociência. Entretanto tal implicação é a posteriori, não é a priori. Isto é, elas não precisaram assumi-los para que funcionassem. Esses, ao serem implicados, apenas renderam mais créditos empíricos àquilo que antes já funcionava bem e já possuía considerável suporte evidencial.

    O segundo, é que o reducionismo epistêmico-metodológico é um mito. Caso fosse verdadeiro, mesmo uma ciência como a biologia seria impossível, visto que seriamos obrigados a descrever o funcionamento de um nicho ecológico com o vocabulário da microfísica.

    O último, é que a autonomia teórica e metodológica pode indicar igualmente uma autonomia legiforme, isto é; leis que regem a psicologia humana não são as mesmas que regem o funcionamento de um grupo de neurônios, embora possam ser consistentes e até implicarem essas últimas. Se um fenômeno é produto de variáveis de diferentes estratos da realidade — no caso da mente, não apenas variáveis neuronais, mas também ambientais e ontogenéticas — é presumível que seja estruturado por leis que arregimentem e integrem essas variáveis em vez de por leis que descrevem o funcionamento das variáveis correspondentes a somente um desses estratos. Nesse caso, uma ciência da mente encerrada no cérebro soa desvinculada da realidade, visto que a metodologia da neurociência apenas permite, grosso modo, descrever leis eletroquímicas que regulam as conexões entre neurônios, mas passam longe de descreverem as interações “ecológicas” e os demais condicionantes ontogenéticos e sociohistóricos a que estão sujeitos os organismos humanos . Isto indica que, para lidar com todas as instâncias estruturantes da psicologia humana, uma ciência tem de ser, antes de mais nada, interdisciplinar.

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  33. Natanna e Marcus Vinícius,

    Concordo e me preocupo muito com a questão da psicologia em nosso país. A poucos dias estive discutindo em algumas bancas o distanciamento absurdo que está ocorrendo entre propostas de terapias comportamentais-cognitivas das bases teóricas da própria Ciências Cognitiva! Chega a ser pior do que algumas junções entre o inconsciente freudiano e suas bases neurocorticais...

    Entretanto, ainda permaneço mais apavorado com essas mágicas teorizações pós-modernas e seus horizontes líquidos e unodualistas (pasmem... não estou brincando... li vários textos com tais expressões!)

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  34. Marcus Vinícius,


    Por mais que eu tenha relutado ao longo dos anos de que minha busca por um ordenamento geral para a realidade fosse algo a ser buscado a todo custo, creio que terei que me render aos dizeres do professor Newton da Costa quando ele dizia mais ou menos assim: "... o que importa é termos modelos [matemáticos] bem elaborados para que seja possível tratar com rigor os diversos problemas..." e, talvez, nada mais nos resta.

    Marcus, também concordo com você que existam muitos trabalhos sérios acerca deste ponto que estamos agora evidenciando. entretanto, como já discuti com nossa colega e jornalista científica do grupo de pesquisa - Rafaela Sandrini - parece que estejamos aumentando o hiato entre o trabalho científico/filosófico de outras especulações (que em muitos casos são além de superficiais e simplórias,são má intencionadas!). O problema é que muito do que se fala que seja trabalho psicológico, filosófico e neurocientífico é apresentado ao público em geral de forma MUITO distante do que realmente seja! E isso é sim um grande problema.
    Quanto a autonomia epistemológica.... sinceramente... ainda me preocupo com esta questão. Concordo que não é possível (por simples questão de tempo e complexidade) estabelecer todos os aportes e relações entre os diversos âmbitos de investigação, todavia, creio que em muito casos, talvez, isso seja conveniente e até necessário!

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  35. Eduardo,

    sinceramente acho que tu divide demais as coisas e parece que sem tais divisões nada mais é possível. Eu já prefiro deixar bem claro o conceito dos termos chaves que estamos usando para tratar determinado problema e PONTO FINAL. Quando respondeste ao Jean acerca do teu entendimento de epistemologia, me pareceu, grosso modo, que Filosofia da Ciência e Epistemologia são ABSOLUTAMENTE incomunicáveis... Sinceramente, não sei se isso é assim tão fácil de dizer. Eu prefiro estabelecer os limites da discussão mas não apresentar o que me parece dogmas demarcatórios intransponíveis entre estes âmbitos/atividades.

    Esse é um dos motivos que evito citar autores e/ou áreas de conhecimento, prefiro o PROBLEMA... e que seja permitido utilizar todas as formas possíveis para podermos melhor tratá-lo, simples assim (por mais complexo que fique e por mais devagar que andemos em no tratamento de determinados casos...OK!)

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  36. Eduardo (II)...

    me parece então, pelo que propões, que ter uma preocupação em discutir a Epistemologia das Neurociências, por exemplo, é algo também absurdo!

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  37. Nivaldo,

    entendo suas preocupações. Felizmente, o que eu afirmei em comentários anteriores não vai de encontro a elas.

    faça uma leitura caridosa (:

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  38. Nivaldo,

    Epistemologia das Neurociências, não sei o que seria isso. Sei no entanto que já temos uma disciplina onde se pode tratar dos problemas epistemológicos postos pela neurociência, a filosofia da ciência.

    Ao contrário do que vc pensa, o que eu defendi não torna de modo algum a epistemologia (teoria do conhecimento) e a filosofia da ciência incomunicáveis. Na verdade, é totalmente o oposto. A filosofia da ciência é simplesmente uma disciplina que trata de alguns problemas epistêmicos e metafísicos, aqueles relacionados à ciência (seja física, biologia, ou neurociência, etc). E não estou sozinho aqui. Essa é a visão dos principais filósofos de hoje, como podemos acompanhar pelas melhores revistas da área, como Mind, Erkenntnis, Synthese, Nous, etc.

    um abraço

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  39. "The philosophy of neuroscience is the subfield of the philosophy of science concerned with the goals and standards of neuroscience, its central explanatory concepts, and its experimental and inferential methods." (Craver, C.; Kaplan, D.M. in French & Saatsi, 2011.)

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  40. Ótimo texto, já nos introduz as incógnitas e ao mesmo tempo instigantes questões que cerceiam o tema abordado, revelando o teor do debate que se sucederá.

    Abraço!

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  41. Agradeço a todos que estiveram presentes à Mesa Redonda - A Inflação da Neurociência. Foi um momento de aprendizado importante para mim - preparar-me para ela, ouvir os comentários e responder aos questionamentos, aqui no blog e no grupo, foi enriquecedor.

    Eu espero que tenhamos outras oportunidades de nos encontrarmos e discutirmos algumas ideias.

    Obrigado pelo convite, pelo acolhimento e pela gentileza em dedicarem tanta paciência comigo, hoje à tarde!

    Abraços...

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