16 de julho de 2009

“Exames de neuroimagem são confiáveis?”

Esse é o título de umas das reportagens da revista Mente Cérebro do mês de julho. A matéria trata de um tema que tem gerado polêmica no meio científico desde o início do ano. Isso porque, em dezembro de 2008 um periódico americano, o Perspectives on Psychological Science, liberou o acesso de um de seus artigo antes que fosse publicado - já supondo que o assunto ia gerar repercussão.
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O artigo, assinado por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e da Universidade da Califórnia em San Diego, sugere que boa parte dos estudos de neurociência cognitiva que utilizam ressonância magnética funcional (fMRI) pode estar comprometida por análises estatísticas inadequadas que alteram seus resultados. Segundo os autores, dos 54 resultados analisados, “metade não significa quase nada, porque está sistematicamente inflacionada por análises enviesadas”.

Segundo o radiologista da Universidade de São Paulo (USP), Edson Amaro Jr, as conclusões do estudo não são exatamente novas, pelo menos para os grupos de pesquisa que realmente compreendem os pacotes estatísticos que estão usando. “O artigo prestou um grande serviço porque atingiu pesquisadores que não têm familiaridade com o assunto e muitas vezes nem têm um estatístico na equipe”, diz.

Mas nem tudo está perdido, explica Amaro. Esse viés de análise dificilmente invalida todos os estudos feitos até hoje, mas é certo que, a partir de agora, os autores sejam mais cautelosos na interpretação dos resultados. Isso também faz com que alguns estudos não alcancem o crivo estatístico que justifica uma publicação, pelo menos em revistas de alto impacto, complementa .

Saiba mais:
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Poucos avanços nas neurociências despertaram tanto interesse público quanto a ressonância magnética funcional (fMRI); antes dela nunca havia sido possível observar o cérebro humano vivo em ação. Desde seu surgimento, no inicio dos anos 90, essa técnica de escaneamento cerebral teve ampla aceitação de neurocientistas e psicólogos, que viram na fMRI, a possibilidade de construir finalmente a ponte entre mente e cérebro – sem ter clara noção, entretanto, do que é o sinal medido e do que se pode inferir a partir dele.


Fonte: Revista Mente Cérebro
Veja a reportagem completa no site Viver Mente


Edição: Rafaela Sandrini

9 comentários:

  1. Realmente a dificuldade esta em relacionar o cérebro, sua atividade química e sinais elétricos, com os chamados conteúdos mentais. A grande dificuldade é que a análise física, não é suficientemente capaz de determinar esses conteúdos mentais. Tampouco de nos mostrar como se dá a ponte entre o físico e o mental, sendo que essa relação é visível, pois sabemos que o cérebro ao sofrer algum tipo de dano, provavelmente acaba afetando também o mental, e que o mesmo pode alterar os sinais elétricos do cérebro influenciando o corpo a gerar algum tipo de disfunção orgânica, ou doença.
    Porém o que se mostra válido é justamente essa investigação científica e filosófica, a tentativa incessante de se explicar o mental em termos de fenômenos físicos, é o que nos livra de misticismos e crenças religiosas que em muito pouco contribuem para a resolução do problema mente-corpo.

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  2. Caro Luiz,

    Creio que você foi muito feliz ao inferir que nossa atividade seja, parafraseando-o, a de evitar ao máximo que questões místicas (e eu acresceria também políticas e de senso comum) povoem a feitura das pesquisas nesta área de investigação.
    Sou um grande admirador das contribuições dos neurocientistas, todavia, o que está sendo veiculado das descobertas nesta área deveriam ser bem mais cautelosas. A neuroimagem por exemplo é um instrumento que muito contribui para o melhor entendimento da atividade cerebral. Mas, é sábio ressaltar que ela ainda está bastante longe de resolver a problemática geral que envolvo a Mente-cérebro humano (ou de quaisquer outros animais)

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  3. Não entendo muito de estatística, mas pelo que andei lendo há uma grande dificuldade em processar os dados gerados por uma ressonância magnética fMRI. Penso que seja uma questão de tecnologia, não temos como analisar todo o pacote de dados em tempo hábil. Com isso, os pesquisadores são obrigados a adotar estratégias técnicas que reduzem as análises a pequenas áreas, as mais cintilantes, que se pensa que são as únicas importantes no processo, e os resultados daí são extrapolados para a área toda, ou o cérebro todo. Outra coisa é que parece que se pensa que correlação ou correspondência implica algum tipo de relação-causal, o que não necessáriamente é verdade. Para dizer que por que uma área está cintilando mais que as outras ela é a causadora de tal tipo de estado mental é preciso um pouco mais de cautela. Cada vez mais está se pensando o cérebro como um sistema integrado, onde diversas estruturas estão relacionadas com a produção de um resultado final, e seja um comportamento ou um estado mental.
    Para finalizar, também há a questão de o que nós aceitamos como um legítimo instrumento de observação científica, que é uma questão bastante importante também. O microscópio digital também não é algo simples, também exige uma manipulação dos dados...não se tem uma imagem direta das células, e sim uma imagem 'filtrada'...

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  4. Eduardo,

    É óbvio com as contribuições das neurociências são incontestáveis! Como já afirmei em diversos momentos, o neurocientista hoje é um dos profissionais que mais contribui para o desenvolvimento dos estudos no que tange ao Problema mente-cérebro. Chego a afirmar que a própria psicologia quando quer se apresentar como um campo doutrinário e procedimental científico DEVE trabalhar em estreita relação com as neurociências (para ser bem sincero, atualmente não separo a psicologia das neurociências em nada! E a recíproca também é verdadeira. É claro que muita coisa que chamam de psicologia eu considero literatura geral apenas, logo, não considero como sendo parte da psicologia (que, por sua vez, DEVE ser tratada como ciência)).

    Entretanto, Eduardo, quando apresentas sua preocupação de que instrumentos que visam perceber o funcionamento cerebral in vivo afirmam perceber em nível causal diversos comportamentos mentais... isso realmente me parece algo muito preocupante. estamos ainda muito longe disso...MUITO MESMO.
    Sabe, sempre tive medo de exageros.... prefiro ainda uma boa dose de estrutura lógica nos argumentos....e umm outro tanto do mesmo tamanho de cautelosidade nas inferências apartir de experimentos realizados!

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  5. Isso me lembra a metáfora interessante contida nas primeiras páginas do livro do João. Comparava-se a neurociência com um navio pomposo, com inúmeras tecnologias modernas, mapas, bussúlas, enfim, tudo de última geração, mas que não sabe da onde partiu nem para onde deve ir.

    Nivaldo: não sei se dá para afirmar que a psicologia é inseparável da neurociência. Pois a observação, análise e padronização do comportamento se deu muito antes da neurociência agregar conhecimento com a psicologia. Acredito que ambas as áras de conhecimento contribuem, mas uma nào substitui a outra, e elas podem caminhar de forma mais independente em alguns casos.

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  6. Nina,
    A observação do céu iniciou-se antes de saber que a terra é redonda, mas com o avanço, não se retocede as pesquisas, como se a terra não fosse.
    Eu (Egon) aposto na neurociência como base única pra psicologia, sim... Eu não consigo ver a psicologia caminhar descartando a neurociência. E vejo que, com o tempo, a confiabilidade e exatidão da neuro devem aumntar (processo pra mim, natural)

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  7. Há muito que as descobertas da neurociência vem gerando discussões calorosas entre os pesquisadores, principalmente os céticos. Embora seus achados tenha dado uma enorme contribuição no campo da ciência, principalmente da ciência do cérebro, impulsionando suas áreas afins, como a Psicologia, Psiquiatria, Farmacologia para compreensão das bases biológicas do comportamento (mas não só), estamos ainda, eu diria, muito distantes de descobrir que tipo de relação existe entre mente e cérebro. Isso porque não carecemos apenas de descobertas científicas, mas também de longas e incansáveis discussões filosóficas e conceituais acerca do que chamamos MENTAL!

    Luciane Simonetti
    8ª Fase do curso de PSICOLOGIA/UNIDAVI

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  8. Alguém consegue citar uma coisa boa que as neuroimagens nós deram?

    Fortes abraços

    Thiago Rivero

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