14 de junho de 2008

Comissurotomia: a unidade da mente em teste


A grande aposta dos monistas nos últimos 60 anos é, sem dúvida, as neurociências. Através do estudo do funcionamento cerebral humano os defensores desta abordagem filosófica buscam encontrar evidências científicas capazes de refutar o dualismo e sua herança cartesiana.

A primeira oportunidade para isso ocorreu na década de 50. A comissurotomia, cirurgia que “desconecta” os hemisférios cerebrais através do corte do tecido que os liga (corpo caloso), propunha-se a ser não apenas um tratamento contra casos graves de epilepsia, mas também uma fonte inspiradora para sérios questionamentos filosóficos. Pois, afinal de contas, dividir o cérebro resultaria em uma divisão da mente?

Descartes era taxativo ao dizer que a mente, ao contrário do cérebro, é por natureza indivisível. No ato de pensar não conseguimos distinguir parte alguma. As comissurotomias poderiam ser a chance ideal para mostrar empiricamente o quão correto era esse argumento.

Os testes com os primeiros comissurotomizados mostraram que hemisférios corticais diferentes processam estímulos sensitivos diferentes. Sperry e Gazzaniga, cientistas que coordenaram estes estudos, foram além e concluíram que um cérebro bisseccionado passava a possuir dois “eus” distintos que disputavam o controle do organismo.

Mas muitos filósofos não aceitaram tão facilmente esta resposta científica. Nagel, por exemplo, afirmou que a comissurotomia não nos levaria a decidir nem a favor nem contra a assimetria cartesiana. É que mesmo que o nosso sistema mental/cerebral seja múltiplo, concebemos a nós próprios como sendo uma unidade. O verdadeiro problema filosófico seria saber por que a idéia de unidade da pessoa persiste, apesar de ser provavelmente fictícia.

J. Teixeira atenta para a questão de que pesquisas como as feitas com pacientes comissurotomizados poderiam nos levar a inferências errôneas ou até mesmo inconclusivas. Para ele, não apenas os dados empíricos precisam ser levados em consideração, como as interpretações destes dados é que carecem de uma análise mais aprofundada. Isso nos remete a antiga discussão sobre a demarcação de âmbito entre ciência e filosofia. O que não significa, contudo, que as comissurotomias tenham deixado de ser um material valioso para exploração filosófica e metodológica.

Texto de Luiz Paulo Juttel e Rafaela Sandrini

15 comentários:

  1. seria muito bom se pesquisas deste tipo tornassem-se mais viáveis, mas como se tratam de seres humanos, infelismente sabemos como são as coisas... enquanto isso gasta-se dinheiro com "lares para cachorros abandonados", e protege-se os sapos de serem cortados em aulas de biologia...

    em se tratando de filosofia, devemos cuidar pra não dar à especulações valor de verdade tão rapidamente. Minha aposta maior é que com os avanços das neurociências possamos ter uma visão melhor desse problema.

    :)

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  2. Eduardo,

    Sua preocupa�o � cab�vel.... Consequ�ncias de atos cirurgiccos em n�vel cerebral podem levrar a grandes consequ�ncias em outras �res. Notemos o direito que teria problemas enormes em elaborar normas para regrar a culposidade ou dolosidade de um ato il�cito no caso de um ind�v�duo que tivesse o corpo caloso seccionado...Qual EU seria o ente efetuante de tal ato delituoso!?!

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  3. certamente Nivaldo,como vimos no sábado, esta é uma questão que ainda vai dar muito trabalho, e não só para o direito, e sim um trabalho interdisciplinar, onde psicologia, neurociências, mecatrônica e talvez outras ciências venham a interfirir..

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  4. È impressão minha ou nós apesar de já termos feito grande descobertas e de termos evoluido muito, sabemos ainda tão pouco?
    È interesssante como cada vez(ou na maioria das vezes) que se descobre algo parece que surge um novo questionamento sobre o mesmo assunto. Mas confesso que; e acho que justamente por isso eu esteja tão empolgada com isso tudo.

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  5. Comparando esta importante e ainda não definida questão com uma área que domino um pouco melhor, governo/jurídico: Hobbes, filósofo monista, defendia um estado único, soberano, para que o “estado natural” não aniquilasse a humanidade. Podemos teorizar que a democracia, “estado natural atual”, está sendo tomado pela corrupção, falta de ética, e degradação do nosso eco-sistema não estariam levando ao fim da humanidade? Ou nada é conclusivo como menciona no caso das comissurotomias, nosso Professor João Teixeira?

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  6. Eduardo

    Eu ainda diria em que se tratando das neurociências, inteligência artificial e etc os problemas não estariam somente em se dar à especulações valor de verdade mas também ao fato de se estigmatiza-las muito rapidamente.
    Experiências com animais, criação de máquinas inteligentes, lobotomias... são questões que geram muitas reações negativas e pelas quais muitas pessoas relutam radicalmente.
    Escrevendo, lembrei-me de uma reportagem recente sobre eletrochoque que continha um dado interessante :
    O filme “Um estranho no Ninho” de Milos Forman lançado em 1975,(no qual o personagem é submetido a uma lobotomia e reduzido a um estado vegetativo) pode ser um bom exemplo dessa estigmatização. Uma pesquisa feita na Irlanda em 1983, mostra que 60% das pessoas que assistiram ao filme passaram a defender o fim da terapia.
    Some-se à esta questão(da distorção da ciência na ficção) implicações éticas, religiosas e morais e veja o quanto árduo se torna o trabalho e o desenvolvimento das neurociências.

    ;)

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  7. Glauco,

    Um dado muito interessante que você apresenta é quando trazes a tona a questão do ESTADO DE NATUREZA. Com a comissurotimia estaríamos dividindo a natureza de uma determinada pessoa?
    Outro dado interessante é de que se realmente o ser humano possui uma natureza ou é História!? Essa discussão divide muitos estudiosas de outras áreas que dentre elas poderíamos aqui também lembrar a Antropologia.

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  8. Em ritmo de festas juninas: eta dilema complicado sô. Minha vontade é de opinar, “mas sei que sei muito pouco”, pois entre os limites do homem auto-determinado de Rogers, COM o controle social do homem de Freud, há uma percepção de que mesmo puro ou mal intencionado, o homem é moldado na sua história de vida, e aí surgem os líderes e os liderados.

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Eu vou jogar uma pergunta, que pode tanto ser idiota, ou então a solução de nossos problemas.

    As duas partes do cérebro trabalham juntas, quando estão ligadas uma na outra.
    Os rins da mesma forma. Quando um para de funcionar o outro trabalha mais.

    Será que com o cérebro não acontece a mesma coisa?
    quando se corta a conexão entre as duas partes, será que uma delas não deixa de funcionar, e a outra passa a operar com mais "serviços"?

    Ou então, se essa suposição aí estiver errada, só posso dizer que eu acredito em 2 Eus.

    Obs.: será que nós não somos 2 já?
    o consciente um EU, e o subconsciente o segundo EU?

    Até a próxima.

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  11. Felipe,
    Tudo depende. Se você parte do pressuposto de que existe além da consciência uma sub-consciência, sim. Caso contrário, a consciência é única. O que acontece, é que ao se fazer uma comissurotomia, há uma divisão do centro da consciência. Isto não necessariamente significa que temos dois "eus", apenas funções cerebrais que não trabalham de forma habitual.
    Quanto a sua pergunta relativo ao trabalho que o rim faz quando o outro pára de funcionar, acontece sim com nosso cérebro da mesma maneira. Existe o que chamamos de plasticidade cerebral, um processo funcional que ocorre quando uma parte do meu cérebro é danificado e as outras áreas cerebrais tomam para si estas funções que foram destruídas. Entretanto, nem sempre isso ocorre, isto é, os cérebros são diferentes uns dos outros e isso vai depender da estimulação que se recebe, da genética da pessoa, etc.

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  12. Bem, pelo que podemos perceber, apesar de inumeros estudos voltados ao "funcionamento" dos seres humanos, pode-se afirmar que nos encontramos muito distantes de respostas concretas.
    Como Silvia indagou, a cada resposta encontrada, vários novos questionamentos surgem em volta da mesma o que remete-nos a complexibilidade da situação.
    Deveriam sim, apesar de tudo haverem maiores investimentos nesta área que encontra-se de certa forma "esquecida".

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  13. Este comentário foi removido pelo autor.

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  14. Pois é Kleber...compreender a relação mente-cérebro talvez seja uma das questões mais difíceis e importantes no cenário científico.

    ;)

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