quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

INTRODUZINDO DENNETT


O que é a mente? É possível ter acesso direto aos conteúdos mentais? O que é a consciência? Estas questões por muito tempo foram - e ainda são - discutidas na filosofia e, recentemente passaram a chamar a atenção de alguns cientistas, dispostos a aplicar o método científico para respondê-las.


Desde a filosofia grega já se pode perceber o interesse dos filósofos em relação ao mental, discussões metafísicas. Mas foi a partir do século XX que a Filosofia da Mente surge como uma disciplina filosófica exclusivamente dedicada a resolver estas questões acerca da natureza do mental. Também nesta época estas questões passam a ser objeto de investigação científica, donde surgem várias abordagens diferentes na tentativa de explicar o mental, algumas negando-o, outras correlacionando-o com áreas cerebrais, e ai por diante.


Um dos grandes avanços que a filosofia da mente trouxe neste século foi a tese do Naturalismo. O naturalismo, tal qual proposto por W.V.O. Quine, é a idéia segundo a qual a filosofia deve ser um braço, uma extensão da ciência, que deve incumbir-se de refinar e assegurar o rigor do discurso científico. Assim, o partidário do naturalismo parte do princípio de que reflexão filosófica e pesquisas científicas devem caminhar de mãos dadas, estreitando a linha divisória destes dois âmbitos do saber.


Discípulo de Quine em Harvard, de quem herdou o naturalismo - idéia segundo a qual a Filosofia deve ser um braço, uma continuação da Ciência - e de Ryle em Oxford, que legou-lhe a tradição da Filosofia Analítica, que tem por característica central a análise da linguagem, principalmente dos termos psicológicos, Dennett figura hoje como um dos mais importantes filósofos da mente de nosso tempo.


Por meio de uma investigação interdisciplinar que envolve diversas áreas do saber, dentre as quais destacamos: Filosofia da Linguagem, Neurociências, Psicologia Evolucionária, Ciências da Computação/Inteligência Artificial e Epistemologia, as questões antes tratadas apenas do ponto de vista metafísico recebem um novo tratamento na filosofia de Dennett, à luz do conhecimento científico.


Dennett traz uma abordagem que busca responder as nossas questões iniciais de um modo totalmente novo na filosofia da mente. Seus trabalhos têm uma estrita ligação com o que está sendo pesquisado no âmbito científico, ultrapassando os limites da chamada filosofia de poltrona. Para ele, o filósofo não apenas deve tratar de questões científicas, mas precisa estar junto, participando de equipes multi-disciplinares, onde cientistas e filósofos trabalham juntos para o avanço e refinamento das teses científicas.


Dennett parte – contra grande parte dos filósofos - do pressuposto de que não temos acesso privilegiado ao que se passa em nossa mente; não existe uma perspectiva de primeira pessoa, incorrigível. Esta abordagem foi denominada por ele de Heterofenomenologia, ou seja, o estudo do que se passa em nossa mente, mas feito a partir de uma perspectiva de segunda ou terceira pessoa (hetero).


HETEROFENOMENOLOGIA
_________________________________________________________

A heterofenomenologia é como define Teixeira (2008), um processo de reconstrução do relato subjetivo das pessoas, que por sua vez elimina a autoridade do sujeito sobre seus próprios conteúdos mentais e, deste modo permite que interpretemos sua experiência de uma perspectiva de segunda ou terceira pessoa. Sendo assim, os conteúdos mentais, antes reservados apenas a investigações metafísicas, podem agora serem estudados pela ciência, pois o discurso heterofenomenológico é feito a partir da mesma perspectiva de terceira pessoa da ciência.

Outro ponto central na filosofia de Dennett é a teoria dos Sistemas Intencionais. Com ela, o filósofo busca fundamentar a explicação do comportamento – humano ou robótico – a partir da atribuição de mentalidade a tais sistemas.


Segundo Dennett (1978), existem três níveis básicos de explicação e predição do comportamento dos sistemas. O primeiro é o nível físico, para explicar e predizer algum comportamento do sistema é necessário que reunir todo o conhecimento possível acerca do estado físico do mesmo, o que em um sistema com um alto nível de complexidade torna-se uma tarefa muito difícil de ser realizada em tempo hábil.


O segundo nível que é o de projeto, já apresenta um passo mais arriscado do que o nível físico, porém, proporciona explicação/predições mais satisfatórias do que as apresentadas no primeiro nível. Aqui o que conta é o conhecimento, se tem acerca do projeto do sistema em questão. Interpretamos o que acontece e o que vai acontecer de acordo com a opção mais adequada segundo o projeto do sistema, ignorando o estado físico do mesmo.


Esta visão pode nos apresentar superior a primeira em várias situações, porém, também tem seu limite na complexidade do sistema. Quando se trata do comportamento de um ser humano, o conhecimento detalhado do projeto e de todas as variáveis intervenientes a produção de determinado comportamento tornam-se inviáveis, dado a grande complexidade de tal sistema.


Chega-se então ao nível intencional. Neste, partimos do pressuposto de que nosso sistema/agente intencional é um ser racional, que possui crenças e desejos acerca do mundo, e que agente de maneira inteligente sobre ele. Porém tais atribuições devem ser feitas com cuidado. Ao atribuir ao agente tais predicados, não afirmamos o que ele os possui, estamos apenas utilizando-os para explicar/predizer seu comportamento.


Nestes termos, uma explicação/predição baseada na postura intencional condensa um grande número de informações acerca do agente, as quais seriam impossíveis de serem obtidas a partir da postura física ou de projeto, e torna inteligível para nós o comportamento de tal agente.

Na próxima postagem discutiremos o conceito de mente e de consciência de Dennett.

Nota: Algumas passagens do presente texto foram retirados do artigo ainda não publicado, intitulado “Padrões Reais: a contribuição de Daniel Dennett para a Filosofia da Mente e a Psicologia”, de Eduardo Benkendorf e Nivaldo Machado.

Texto: Eduardo Benkendorf
Revisão de texto: Caroline Vogel

38 comentários:

ninat disse...

Excelente texto Eduardo. Didático, sem ser simplista. Enxuto, sem ser negligente.
Uma passagem chama a minha atenção, relativo a definição da heterofenomenologia:
"um processo de reconstrução do relato subjetivo das pessoas, que por sua vez elimina a autoridade do sujeito sobre seus próprios conteúdos mentais e, deste modo permite que interpretemos sua experiência de uma perspectiva de segunda ou terceira pessoa."
Tirando a parte questionável do termo "reconstrução" e da validade desse processo, gostaria de saber os argumentos utilizados para tirar a autoridade do discurso de primeira pessoa e doa-lo para o discurso de terceira pessoa. Questionar a autoridade do acesso direto aos conteúdos mentais? Ok, vá lá. Agora, passar a autoridade para o discurso "recriado" em terceira pessoa? Pq? Da onde vem essa autoridade?

Caroline Vogel disse...

Parabéns Eduardo pelo texto!
O que me questiona com relação ao “O que é a mente?”, “O que é a consciência”?, é que questões são levantadas para responde-las e como elas são importantes para o desenvolvimento do âmbito da ciência mundial. Outro fato interessante, é o que Dennett descreve, que cientistas e filósofos devem trabalhar juntos para o avanço de teses científicas. Quanto à heterofenomenologia, é válido questionar de que temos pouco acesso aos processos internos, experimentos através da heterofenomenologia são úteis para construir e estudar o termo “consciência”, é a maneira correta?

Mary Fuchter disse...

Sabemos todos que o estudo da cognição esta ainda por ser decifrado pois ao longo dos anos, ou bem, ao longo dos séculos e com estudos fundamentados ainda não foi possível descrever exatamente o que é a mente do ser humano, mas nos é interresante saber que as pesquisas evoluíram nas ultima décadas. Mas em se tratando de DENNETT podemos obter mais conhecimento desse incrível universo que é a mente, a questão em assunto me intriga pois questiona se é possível ter acesso direto aos conteúdos mentais, segundo Dennett não temos acesso privilegiado em nossa mente, mas denominou que pode existir a Heterofenomenoligia , agora minha dúvida quanto ao que a Nina escreveu para saber se entendi. O processo de reconstrução do relato subjetivo das pessoas para uma terceira pessoa não seria o processo de ultrapassar os limites da filosofia da poltrona e estar junto participando na forma do que percebi em minha primeira aula de não apenas conversar, mas de usar dinâmicas para poder adentrar o universo da mente em questão, sendo que passar a autoridade do discurso recriado seria a interpretação destes fatos, utilizando-os para explicar seu comportamento. Pelo que pude compreender este direito de recriar esta baseada na ajuda que se pode oferecer a mente estudada em questão, quando por si só uma pessoa não saberia descrever o que esta acontecendo em sua mente. E deixo uma pergunta aos participantes: Devido a complexidade da mente é mais fácil saber o que se passa em sua própria mente, ou saber o que esta na mente de outro individuo???
Parabéns pelo texto Eduardo
Até mais!

Mari -- PSICOLOGIA fase 1

Nivaldo Machado disse...

Mari,

Saber o que se passa na própria mente e saber o que se passa na mente de outra pessoa tem exatamente o mesmo grau de dificuldade... é justamente por isso que Dennett cria sua teoria da Heterofenomenologia, pois, a princípio, nem podemos dar um status de realidade ontológica para o mental (por causa do famoso problema do dualismo de substância cartesiano), nem temos o acesso imediato (consciente) aos processos cerebrais que participam do determinado "estado mental" que estamos vivenciando num momento "t".
Nagel tem um interessante texto que trata da problemática de se tentar conhecer outras mentes - What Is it Like to Be a Bat? (provavelmente já devemos ter este texto traduzido)

Nivaldo Machado disse...

Carol,

Entre tantas voltas... Hoje volto a estudar o que me inquietara desde o início de minhas pesquisas em Filosofia da Mente e ciências Cognitivas - Sem dúvida, a CONSCIÊNCIA é o maior problema a ser tratado neste âmbito (estou aqui incluindo as pesquisas neurocientíficas todas...OK!)

Daniela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Daniela disse...

Nagel contra-ataca a fisicanálise, onde o mental é reduzido ao físico,uma abordagem um tanto reducionista.
Para Nagel imaginar ser algo de nada nos adiantará, pois não passa de imaginação do que se trata ser.
Desse modo se trataria de uma imaginação do que nós mesmos somos?


Daniela Tamanini

Nivaldo Machado disse...

... só não sei o motivo pelo qual tantas pessoas são contra o Reducionismo! Reduzir algo não implica necessariamente em inferiorizá-lo...

Lembrei agora do Pluralismo Epistemológico do Searle (que, a meu ver, é uma falácia simplista)

Luiz Fernando Barcelos disse...

Considerando a teoria dos sistemas intencionais, os estados mentais como construções teóricas, um sistema hipotético que utilizamos para tornar inteligível o comportamento de outros seres ou sistemas, fica claro a utilidade do princípio da heterofenomenologia, que nos permite em nível de terceira pessoa, através dos algoritmos de compressão, demarcar os eventos mentais, (nós mesmos só temos acesso a nossos estados mentais através de relatos de nossos próprios estados mentais o que ocorre em nível de terceira pessoa). Sendo assim, tais estados se dão em nível linguístico-epistemológico, o que torna possível uma ciência do mental. Se for considerar um nível de primeira pessoa, possivelmente nos remeteríamos a um problema ontológico e conseguintemente como disse o Nivaldo, a um dualismo.
Parabéns pelo texto Eduardo...

Marindia Colla disse...

O que me parece cativante na proposta de Dennett é a valorização do trabalho científico sem desconsiderar o caráter de abstração que há na linguagem em todas as suas formas de expressar o conhecimento.

Isso se dá inclusive nesse momento em que podemos, por exemplo, questionar se o termo certo a ser utilizado é "expressar", ou através do questionamento em que tenta-se definir o que é conhecer, inclusive se a natureza a ser avaliada é a dos fenõmenos mentais.

Esse sentido que Dennett propõe estar implícito na Filosofia, Letras, Poesia e Matemática, ressoa em uma intrigante proposta desafiadora da "linguagem bem feita" mencionada como uma tentativa para lidar de maneira o mais eficaz possível com o que é natural.

Um desafio desse porte insinua o abandono da percepção do senso comum perante a ciência como portadora das respostas, e sim como uma porta a ser averiguada, por isso a proposta de Quine é agradável aos cautelosos ou poderia dizer céticos?

Assim Dennett aos meus olhos apresenta uma humildade científica, ao contrário do que pode parecer a primeira vista.
Uma obra definitivamente interessante.

Parabéns Eduardo pelo texto e Carol pela revisão. Trabalho que expôs claramente o tema.

Abraço a todos.

Eduardo Benkendorf disse...

Nina,
respondendo a sua pergunta, sobre o porque retirar a autoridade da primeira pessoa sobre os conteúdos mentais, Dennett parte do princípio (como Kant) de que não temos acesso privilegiado acerca do que se passa em nossas mentes, e sim que estamos condicionados a um acesso mediado/filtrado pelo nosso aparato cognitivo. Sendo assim, tudo o que sabemos sobre nossas mentes não passa de uma "versão" filtrada, um acesso secundário. Não há autoridade e tampouco algo como um acesso direto, subjetivo, em primeira pessoa, temos apenas acesso a um discurso em segunda ou terceira pessoa. O que Dennett quer é retirar a autoridade da primeira pessoa sobre o seus conteúdos mentais.

att

Eduardo Benkendorf disse...

Daniela,

a respeito das críticas de Nagel ao reducionismo... elas não dizem respeiro a posição de Dennett acerca do mental.
Ele defende um tipo de materialismo não-reducionista, onde o mental não é redutível ao físico, e tampouco é algo para além do físico, no sentido dualista.
O mental é entendido aqui como uma ficção útil; uma construção teórica que nos permite tornar o comportamento humano/robótico inteligível e possibilitar predições seguras e úteis a partir disso. Um exemplo de ficção útil é o conceito de centro de gravidade. Este não possui um objeto no mundo que seja seu correspondente físico, todavia, é de suma importância para embasar as explicações e predições da Física em relação ao movimento dos corpos na terra. Neste mesmo sentido Dennett entende o mental, não reduzindo-o ao físico, e nem caindo em um duailsmo.

Nivaldo Machado disse...

O Problema que encontro em Dennett é que não me parece muito claro respondida a seguinte pergunta: Haverá um status ontológico para o nível de terceira pessoa!? Se sim, qual!? Se não... neste caso... carecemos de uma resposta mais convincente.

Todavia, o entendimento da valia do vocabulário mentalista da Folk pasychology ... uma teorização primorosa!

Mary Fuchter disse...

Olá,
É de fato intrigante todo o poder que a mente exerce sobre nós sem que possamos entendê-la completamente, pois como poderíamos explicar a capacidade de criação da mente humana de todos os níveis, criarem um robô, um clone, ir à lua, etc... Tanto conhecimento tecnológico e humano, mas o mais importante e o que move tudo isso ainda não foi possível compreender "a mente" capacitada de imensa sabedoria, mas indecifrável. Bom, disso todos sabem e nas infindáveis buscas as mais variadas perguntas seguimos pesquisando, observando palavras do Nivaldo sobre a consciência pude recordar de um texto "Pensando na Vaca Amarela" e me deparei com a mesma dúvida sobre "Ter a Consciência Pesada", de que forma age a mente quando sob pressão de um ato praticado ou na intenção de praticar? Pois a Vaca Amarela de fato não existe, mas o peso na consciência por ter revelado um segredo é real?

Nivaldo Machado disse...

Eu não teria tanta certeza de que a "Vaca amarelo que estou imaginando agora" não existe!

;)

pois, se não existe... como posso pensá-la!?

Mary Fuchter disse...

Tudo bem, posso pensar na tal vaca amarela e de fato ela pode existir, mas você ja viu uma vaca amarela em forma animal? A mente tem o poder de criar coisas como falei anteriormente mas dai a elas existirem de fato ja dificulta o estudo, como a questão de ter a conciência pesada, vc ja viu a sua consciência pesada? ou apenas a imaginou ou sentiu um peso na consciência? Vou além e questiono, temos nosso estado consciente e inconsciente que estão separados entre si mas que podem tornar a tal vaca amarela real, ou não, no sentdio de que o consciente cria a imagem e o inconsciente a reproduz, seria isso? No momento penso na vaca amarela da seguinte forma: visualizo mentalmente uma vaca pois de fato a conheço de verdade e penso na cor amarela que também sei que existe, junto as duas coisas e crio a minha vaca amarela, mas na realidade nunca vi uma vaca que não fosse branca,preta ou marrom...
Terei que fundamentar mais minha base para concretizar meu conhecimeto, por hora é isso.
bye bye

Sou C! disse...

Com certeza não me cabe - ainda - fazer ponderações em conteúdos de ordem tão complexa quanto os que são tratados aqui. Em breve, quem sabe...

Enquanto não, vou admirando vocês que tem este, digamos, potencial e peço licença para "linkar" o blog do "Filosofia da Mente e Ciências Cognitivas" lá no "Um C entre tantos" (o meu blog de adolescente mal resolvida).


Encantada, e sobretudo grata,

Claudia Letícia Geremias

angelo disse...

BOM!!! ÓTIMO TEXTO EDUARDO, DESCULPE SE O COMENTÁRIO NÃO FOR COMPREENDIDO, MAS EM RELAÇÃO AO QUE NINA DISCUTE O PORQUE DE DENNETT FALA SOBRE A MENTE EM TERCEIRA PESSOA E NÃO EM PRIMEIRA, TALVEZ SEJA DEVIDO AO FATO DE QUE QUANDO PENSAMOS EM PRIMEIRA PESSOA A NOSSA MENTE CRIA BARREIRAS PARA QUE NÃO VEJAMOS ALGO, OU SEJA, PENSAMOS NAQUILO NO QUE É MAIS AGRADAVEL PARA NÓS. E QUANDO PENSAMOS EM TERCEIRA PESSOA TEMOS UMA VISÃO UM POUCO MAIS ABERTA DE OUTROS FATORES NÃO TÃO AGRADAVEIS E OUTRAS VARIAVEIS QUE A MENTE NOS ESCONDE. E SOBRE O HETEROFENOMENOLOGIA TRATADA POR DENNETT PENSO EU QUE DE CERTA MANEIRA, ELA TRAGA PARA NÓS UMA NOVA APRESENTAÇÃO UM POUCO MAIS CLARA DE ENTENDER A MENTE SEM QUE A MESMA NÃO NOS CONFUNDA.
ESPERO TER COLABORADO COM O COMENTÁRIO
ABRAÇOS PESSOAL

Eduardo Benkendorf disse...

sim Ângelo, essas "barreiras" de que falas são os filtros pelos quais passam as informações dos sentidos até que cheguem a consciência. Neste ponto, Dennett vai defender uma abordagem evolucionista, onde um determinado conteúdo mental entra na consciência a partir de um processo de seleção natural. De um modo geral, a consciência não é entendida como um "fluxo", ou algo como um teatro cartesiano onde os conteúdos mentais seriam interpretados por um homúnculo em nossos cérebros. Ela é antes algo fragmentado, onde vários sistemas especialistas trabalham paralelamente, gerando suas várias "versões" para cada tipo de evento que captamos através dos sentidos.

Esta questão será discutida mais amplamente no próximo post...

deise disse...

É certo de que quando passamos a imaginar a "algo" talves estamos apenas juntamos a imagem que temos familiarizado pelos sentidos por exemplo de "vaca + amarelo = vaca amarela" é neste ponto que Hume trata. Mas onde ficaria a consciência??

Alexandra disse...

Meus conhecimentos ainda não chegaram ao nível de julgar o que é a mente, e se mente e corpo são a mesma coisa, ou mente e cérebro. Mas isso me deixa confusa, será que o pensamento é um sinal elétrico de minhas células cerebrais ou será que é possível apenas compreende-la nas questões ou crenças religiosas?
A subjetividade por exemplo, eu compreendo o que é, e como se constitui, mas não a vejo e não sei onde está.
Nossos pensamentos são infinitos, pensamos o tempo todo, mas e se eles estão em nosso cérebro, em que local estão? E por que pensamos o tempo todo?

Alexandra disse...

Mais fiz perguntas, do que comentei...
Mas ainda quero compreender esta incognita.

Bianca Caroline disse...

Boa Tarde,Como sou iniciante do curso de psicologia ainda não chequei no nível de julgar o que é mente,e se a mesma tem a haver com o cerebro,e se mente e corpo quer dizer a mesma coisa.
minha curiosidade maior sobre mente é porque pensamos o tempo todo?A temática sobre mente é muito interressante.

Heterofenomenologia disse...

Parabéns pelo texto, estou me preparando para a apresentação de um coloquio em sala de aula,cujo o tema é Dennett, estou aprendendo muito e cada vez gostando mais, e foi neste texto aprofundei meu pensamento em relação a heterofenomenologia.

Maroldi disse...

"Um dos grandes avanços que a filosofia da mente trouxe neste século foi a tese do Naturalismo".

Afirmação questionável (e tendenciosa). O naturalismo se situa no meio de um intenso debate e é de modo geral aceito na filosofia da mente de tradição analítica, mas não sem resistência.

Eu teria cuidado em afirmar o "avanço", afinal de contas, trata-se de um 'tomar partido', pois não há o correto e o incorreto, há uma posição filosófica aqui, outra lá; não estamos falando de certo e errado.

abraços,
Maroldi

Marcos A. Rodrigues Jr disse...

Vejo que todos vocês compartilham de uma crença sem respaldo empirico. "A Mente".
E todos os seus derivados: "consciencia", "atenção", etc...

Como podem ainda vocês procurarem estudar esses fenomenos derivados, inferidos de fenomenos comportamentais?

Como podem ignorar o Behaviorismo na psicologia do seculo XX? A critica ao realismo, a construção social da subjetividade, dentre outras linhas não internalistas?

A mente não é causa de nada. A mente é produto, alias a mente não pode ser um subjetivo, mas sim um verbo "to think" ou adjetivo "mental", "inteligente".

Deve-se entender o mental não em pesquisas no cerebro ou em complexos teoremas matemáticos, mas nos contextos em que o comportamento é aprendido/ocorre, e quais são as consequencias que os selecionam.

É impossivel ignorar Darwin em qualquer ciencia.

Marcos A. Rodrigues Jr disse...

Comportamento é relação entre um organismo e seu ambiente. Incluindo nessa perspectiva temos, o andar, o comer, o digitar um texto, mas tambem o pensar, o imaginar, o sentir, etc.
Se esses fenomentos são chamados de mentais, então pode-se dizer que o mental é comportamental pois implica necessáriamente relação de um organimmo como um todo (não partes dele) com o mundo. Sendo que esse mundo passa a controlar o responder desse organismo, e sendo tambem esse mundo em partes criado pelo próprio organismo.

Marcos A. Rodrigues Jr disse...

Meu blog:

http://funcionalanalise.blogspot.com/

Benkendorf.e disse...

Caro Maroldi,

concordo que seja uma afirmação tendenciosa. Defendo este ponto de vista mesmo, meu texto não é uma resenha descritiva...

Benkendorf.e disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Benkendorf.e disse...

caro Marcos,

quero parabeniza-lo pelo grande conhecimento do Behaviorismo e sua grande (porém infundada) crítica à mente.

Penso no entanto que sua indignação quanto ao fato de utilizarmos aqui o termo mente e demais termos chamados por alguns de "mentalistas" (consciência/desejo/pensamento/saudade/indignação) não se justifica.
Não vou retomar todos os pontos necessários a explicação do meu comentário acima, apenas alertá-lo de que como o próprio Skinner escreve em seus livros, discordando do Behaviorismo clássico, que é impossível fazer qualquer ciência negando estes termos. No caso de Skinner, a solução foi fundar um novo tipo de Behaviorismo, o Behaviorismo Radical. Radical porque estaria dando conta não apenas dos termos materiais como também dos mentais. Estes últimos como você mesmo observou, seriam para ele também comportamentos. O comportamento é físico. Tudo é comportamento. Logo a mente é comportamento. ok!

Acontece que há um grande (enorme) erro em pensar que isto ainda é pensado desta maneira.

A filosofia da mente veio neste último século a por em questão muitos dos problemas até então esquecidos quanto a natureza do mental.

Bom, é um saco ter que explicar isso sempre.... deverías ter aproveitado e lido o resto dos posts e lido mais um pouco antes de sair falando do que não sabes! Porém, em geral posso dizer que o que gera a tua indignação (e a minha) é que ainda estás estacionado em 1990 e pensas que a mente é necessariamente dualista.
Também sou muito contra o dualismo (em qualquer versão) porém justificar esta posição (fisicalismo) é muito difícil. (e os behavioristas radicais não estão livres disto!)

Sugiro a leitura do livro "Mente Cérebro e Cognição" do prof. João de Fernandes Teixeira (que por sinal é do dep. de Filosofia da UFSCar) para que possas iniciar um estudo sério disto que chamas ciência (psicologia).

Marcos A. Rodrigues Jr disse...

Caro Benkendorf.e

Vejo uma incompreensão de sua parte a respeito da posição ontologica do behaviorismo.

O Behaviorismo Radical, ou Contextual não é fisicalista, pois afirmar que o material é real cria um dualismo novamente, cerebro/mente.

Mas sim compartilha do pragmatismo do sec. XX de Pierce, James, Mach, Wittgeinstein, Ryle, Rorty. E lendo os textos de Goodman, e Elias penso também poder aproximar esse autor a essa escola de pensamento.

A ontologia behaviorista é relacional, ou seja o sujeito ou objeto são indissociaveis e nascem na relação, o dado inicial é a relação seja ela respondente, operante, ou operante verbal.

Tem um artigo que lhe recomendo tambem dos Prof. Lopes e Abib (2003) O behaviorismo radical como filosofia da mente. Que trata desse relacionismo, que visa eliminar o realismo (essa mitologia) do campo da Psicologia.

Outro texto muito interessante que mostra a origem sócio-histórica de pensarmos em termos de mente/cerebro, ou seja agentes internos causais, é o livro Subjetividade e relações comportamentais do prof. Emmanuel Tourinho.

Agora me responda como o dualismo não pode ser mentalista?

Quando vc infere um processo cognitivo em um por exemplo: Comportamento de resolução de problemas, e relega a essa "cognição" o papel intermediador ou mesmo causal, vc está cometendo mentalismo sim.

Mesmo que essa agencia sejam padrões neuronais, ou sinapses, é espúrio atribuir a isso um papel originador, causal. Assim como metafora da memória não nos é útil, pois nunca encontrarão no cerébro, uma idéia, ou um banco de dados por mais que procurem.

A alternativa mais economica (Ocan??) é a de que o organismo como um todo muda (seu sistema endocrino, muscular, glandular, nervoso se remodelam) em função de variaveis externas e isso "ao mesmo tempo que" taxas, propriedades ou mesmo topografias de responderes se alteram.

O behaviorismo (e isso é um pensamento meu a respeito do tempo) não divide comportamento de organismo, mas o mesmo com os dois que os paralelistas psicofisicos faziam no sec XIX.

Eu chamaria de Paralelismo Orgacomportamental.

Skinner deixa bem claro isso em questões recentes na analise do comportamento quando se remete a etimologia do termo organismo:

Organismo não é um corpo, mas um corpo que faz alguma coisa.

Uma mudança no comportamento "é" uma mudança no organismo.

Obrigado pela dica de leitura a farei assim que terminarem os trabalhos..hehe

Benkendorf.e disse...

Marcos,

tenho noção de que não entendo bastante coisa em BR, todavia, de tudo que você falou sobre Filosofia da Mente pouca coisa se salva...

alguns pontos eu necessito que você me esclareça com mais calma:

"afirmar que o material é real cria um dualismo novamente, cerebro/mente."

essa frase parece fazer sentido junto com:

"eliminar o realismo (essa mitologia) do campo da Psicologia"

O que você entende por "realismo/real"?

Benkendorf.e disse...

Continuação:

"como o dualismo não pode ser mentalista?"

houve uma má interpretação aqui...mente é diferente de dualismo...não são sinônimos, ok?

quando falo mente não necessariamente isso implica em um dualismo, foi esse pensamento que defendi nos comentários anteriores...

o dualismo (em suas várias versões) implica sim nisso que skinner chama de mentalismo (dividir o mundo em res extensa e res cogitans. Todavia, falar em "mente" não implica em aceitar essa posição, ok?

Benkendorf.e disse...

Continuação:

"Quando vc infere um processo cognitivo em um por exemplo: Comportamento de resolução de problemas, e relega a essa "cognição" o papel intermediador ou mesmo causal, vc está cometendo mentalismo sim."

Vamos esclarecer que "mentalismo" é um termo criado por vocês e não tenho total clareza do que queira dizer com ele...pode ser (como já afirmei) que estejam querendo referir ao dualismo cartesiano, mas como já expliquei, pensar que o mental implica em dual é ignorar praticamente toda a literatura filosófica séria deste último século e da primeira década do séc XXI...

O mental PODE implicar em dualismo, todavia, PODE igualmente não implicar...depende da tua posição...assim como falar em Psicologia não necessariamente implica em aceitar as teses psicodinâmicas na explicação do comportamento humano...

Benkendorf.e disse...

Continuação (final):

"Assim como metafora da memória não nos é útil, pois nunca encontrarão no cerébro, uma idéia, ou um banco de dados por mais que procurem."

já pensasse que abrindo um rádio nunca irás encontrar uma música ou uma nota musical lá dentro? por mais que procures!!

abrindo um pen drive nunca encontrarás lá uma foto, uma música, um arquivo de texto com uma ideia/pensamento... por mais que procures...!

o BR também defende que acreditar nestas coisas é uma perda de tempo?

Marcos A. Rodrigues Jr disse...

Admito que não conheço sobre filosofia da mente.

O dualismo que quis problematizar na sua visão é o dualismo em que vc cria novamente uma explicação baseada em duas fazes: causa e efeito (cérebro/mente-comportamento), em que o cérebro/mente causa o comportamento. É ainda uma espécie de teoria homuncular que Skinner negava.
Essa dicotomia é ilusória no campo ontológico, o cérebro é o que acontece internamente ao organismo em função da relação que esse tem com seu ambiente, seja ela no nível da seleção natural, seja no nível da seleção individual, seja na de práticas culturais.
É como se cérebro e comportamento, entendido aqui não como apenas o que o organismo faz, mas como a relação deste com seu mundo. Repito: Comportamento é relação, não é somente R mas S-R-S. Outra ressalva esse mundo (ambiente) não é apenas aquele ambiente estático e externo ao organismo, mas todo pedaço do universo que o organismo se relaciona (até partes internas a ele), mas externas ao responder.
Pense na metáfora do Xadrez, qual o significado de uma peça de Xadrez fora do tabuleiro, fazendo algo fora do que lhe é permitido dentro das regras? Um pedaço de madeira/vidro/metal.
O realismo que eu entendo, é o de afirmar que as coisas existem independente da relação que tenho com elas.

Aquela metáfora da arvore caindo em uma floresta sem eu estar por perto é ilustrativa.

Se vc voltar nos pré-socráticos, como parmenides, vc verá que o ôntico, aquilo que existe não é possível logicamente, pois se ele fosse possível o mundo seria impossível, até mesmo o pensar sobre ele. É uma metafisica da linguagem, uma ilusão, nada é, independentemente de minha relação que a coisa.

A mente não existe nesse sentido, não é uma estrutura independente causadora, mas inferida de comportamentos observados (relações) e tem sentido em uma cultura de individualismo que prioriza habilidades individuais e tenta ofuscar determinações inter-pessoais e ambientais.

A Mente é criada na relação, ela não existe independente disso, e não pode e nunca poderá ser causa de comportamento. Somente é na interpretação dos teóricos.

O Behaviorismo Radical tem uma tendência pragmatista, em que buscamos melhor previsão e controle e não "descobrir a verdade" alusão essa feita pelos antigos ao véu de Isis. Descobrir é revelar o que está escondidos por traz das aparências. Não a nada escondidos por traz das aparências. Não há aparências. Pois dizer que há aparências é o mesmo que afirmar seu oposto o real. O que é em si, como Kant em sua teoria do numenom e fenomenom.

As ciências Cognitivas dentre outras ciências buscam ingenuamente esse numenom a-histórico, essa escência que existe por traz do véu da aparência, que finalmente explique o relacional, o fenomenico.

E atualmente isso está acontecendo na neurociencia, que assumindo o materialismo, não deixa de ser dualista, mas está cometendo o mesmo dualismo de Watson, pai do behaviorismo, que entendia o comportamento complexo como efeito de processos neuronais. Este expressava aqueles.

Vicios de linguagem.

Como dizia Wittgeinstein.

A linguagem enfeitiça.

Marcos A. Rodrigues Jr disse...

Admito que não conheço sobre filosofia da mente.

O dualismo que quis problematizar na sua visão é o dualismo em que vc cria novamente uma explicação baseada em duas fazes: causa e efeito (cérebro/mente-comportamento), em que o cérebro/mente causa o comportamento. É ainda uma espécie de teoria homuncular que Skinner negava.
Essa dicotomia é ilusória no campo ontológico, o cérebro é o que acontece internamente ao organismo em função da relação que esse tem com seu ambiente, seja ela no nível da seleção natural, seja no nível da seleção individual, seja na de práticas culturais.
É como se cérebro e comportamento, entendido aqui não como apenas o que o organismo faz, mas como a relação deste com seu mundo. Repito: Comportamento é relação, não é somente R mas S-R-S. Outra ressalva esse mundo (ambiente) não é apenas aquele ambiente estático e externo ao organismo, mas todo pedaço do universo que o organismo se relaciona (até partes internas a ele), mas externas ao responder.
Pense na metáfora do Xadrez, qual o significado de uma peça de Xadrez fora do tabuleiro, fazendo algo fora do que lhe é permitido dentro das regras? Um pedaço de madeira/vidro/metal.
O realismo que eu entendo, é o de afirmar que as coisas existem independente da relação que tenho com elas.

Aquela metáfora da arvore caindo em uma floresta sem eu estar por perto é ilustrativa.

Se vc voltar nos pré-socráticos, como parmenides, vc verá que o ôntico, aquilo que existe não é possível logicamente, pois se ele fosse possível o mundo seria impossível, até mesmo o pensar sobre ele. É uma metafisica da linguagem, uma ilusão, nada é, independentemente de minha relação que a coisa.

A mente não existe nesse sentido, não é uma estrutura independente causadora, mas inferida de comportamentos observados (relações) e tem sentido em uma cultura de individualismo que prioriza habilidades individuais e tenta ofuscar determinações inter-pessoais e ambientais.

A Mente é criada na relação, ela não existe independente disso, e não pode e nunca poderá ser causa de comportamento. Somente é na interpretação dos teóricos.

O Behaviorismo Radical tem uma tendência pragmatista, em que buscamos melhor previsão e controle e não "descobrir a verdade" alusão essa feita pelos antigos ao véu de Isis. Descobrir é revelar o que está escondidos por traz das aparências. Não a nada escondidos por traz das aparências. Não há aparências. Pois dizer que há aparências é o mesmo que afirmar seu oposto o real. O que é em si, como Kant em sua teoria do numenom e fenomenom.

As ciências Cognitivas dentre outras ciências buscam ingenuamente esse numenom a-histórico, essa escência que existe por traz do véu da aparência, que finalmente explique o relacional, o fenomenico.

E atualmente isso está acontecendo na neurociencia, que assumindo o materialismo, não deixa de ser dualista, mas está cometendo o mesmo dualismo de Watson, pai do behaviorismo, que entendia o comportamento complexo como efeito de processos neuronais. Este expressava aqueles.

Vicios de linguagem.

Como dizia Wittgeinstein.

A linguagem enfeitiça.